sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Novena das Almas também conhecida por Saudações de São Gregório

Dia I
Meu Senhor Jesus Cristo, eu Vos adoro suspendido nessa cruz, e suportando a coroa de espinhos em Vossa sacrossanta cabeça. Rogo-Vos, que essa nobilíssima cruz seja o escudo, que me livre dos Ministros da Vossa Justiça. Amen
Pai Nosso; Avé Maria 

Dia II
Meu Senhor Jesus Cristo, eu Vos adoro nessa cruz chagado e ferido, e dando-vos a beber fel e vinagre. Rogo-Vos, que essas preciosas chagas sejam o remédio, e saúde da minha alma. Amen 
Pai Nosso; Avé Maria 

Dia III
Meu Senhor Jesus Cristo, eu Vos adoro pela grande amargura que sofrestes na cruz,  principalmente naquela hora, em que a Vossa nobilíssima Alma saiu do Vosso bendito Corpo. Rogo-Vos, que tenhais misericórdia da minha alma na sua partida deste Mundo, e a leveis a gozar a vida eterna. Amen 
Pai Nosso; Avé Maria 

Dia IV
Meu Senhor Jesus Cristo, eu Vos adoro colocado no Sepulcro, e ungido com mirra e fragantes bálsamos. Rogo-Vos, que a Vossa preciosa morte seja minha ditosa vida. Amen 
Pai Nosso; Avé Maria 

Dia V
Meu Senhor Jesus Cristo, eu Vos adoro descendo ao Limbo, para livrar as almas que esperavam nele a Vossa vinda. Rogo-Vos, que não entre a minha alma naquelas prisões, e escuros cárceres. Amen 
Pai Nosso; Avé Maria 

Dia VI
Meu Senhor Jesus Cristo, eu Vos adoro ressuscitado da morte e subindo ao Céu, e sentado à mão direita do Eterno Pai. Rogo-Vos,  que me façais merecedor de Vos seguir a essa Glória, e ficar gozando a Vossa vista. Amen 
Pai Nosso; Avé Maria 

Dia VII
Meu Senhor Jesus Cristo, Pastor benigno, conservai os Justos em graça, apartai os pecadores da culpa, compadecei-Vos de todos os Fiéis, e favorecei amoroso a este grande pecador. Amen 
Pai Nosso; Avé Maria 

Dia VIII
Meu Senhor Jesus Cristo, eu Vos adoro vindo a Juízo, chamando os Justos ao Céu, e condenando os pecadores ao Inferno. Rogo-Vos, que a Vossa dolorosa Paixão nos livre daquelas penas, e nos conduza à eterna Vida. Amen 
Pai Nosso; Avé Maria 

Dia IX
Ó amantíssimo Pai, eu Vos ofereço a inocente morte do Vosso precioso Filho, e o amor de Vosso Divino Coração, por toda a culpa, e pena, que eu miserável pecador,  e o mais depravado de todos, mereci por minhas iniquidades. Rogo-Vos também pelos meus parentes, e amigos vivos, e defuntos, e que tenhais misericórdia de nós todos. Amen 
Pai Nosso; Avé Maria 

Petição Final (para todos os dias)
Meu Senhor Jesus Cristo, que admiravelmente revelastes o mistério da Vossa Paixão Santíssima ao vosso Bem-aventurado Servo S. Gregório: peço-Vos, que a este miserável pecador concedais alcançar perfeitamente aquela remissão de pecados, que o vosso mesmo Venerável Pontífice, com abundante Autoridade , e Benignidade Apostólica liberalmente facultou a todos os que deveras se arrependessem, e meditassem o progresso da Vossa Paixão. Vós, que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. Amen 

Rezar seis Pai Nosso, Avé Maria e Glória, e aplicar todas as indulgências pelas Almas do Purgatório.


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quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Sete lições da Peregrinação Summorum Pontificum 2025

No dia 24 de Outubro de 2025 realizou-se, nas instalações do Augustinianum em Roma, o 10.º Encontro Pax Liturgica, promovido no âmbito da XIV.ª peregrinação Summorum Pontificum “ad Petri Sedem”. Estes eventos reúnem, desde 2011, fiéis provenientes de todo o mundo que desejam prestar homenagem ao Papa Bento XVI, que, após tantos conflitos, iniciou a Paz Litúrgica pela publicação do seu motu proprio Summorum Pontificum. Apresentamos hoje sete lições a retirar deste acontecimento.

Lição n.º 1: A juventude e o número - «As praças da cidade encher-se-ão de rapazes e raparigas.» Zacarias 8, 5

De todas as edições da jornada Pax Liturgica e da peregrinação Summorum Pontificum, jamais os organizadores tiveram de enfrentar tamanha afluência. Da basílica de San Lorenzo in Lucina à basílica de São Pedro, muitos fiéis tiveram dificuldade em encontrar caminho e foram obrigados a sentar-se no chão. Na procissão de sábado, 25 de Outubro, as fotografias mostram, na via della conciliazione, a juventude dos presentes. O enviado especial permanente de La Croix em Roma, Mikael Corre, fala de cerca de mil fiéis (a polícia italiana estimou por sua vez a coluna de peregrinos em três mil pessoas), mas não nega a juventude que sobressai daquela multidão. 

Andrea Mattana, 27 anos, Hélène Frelon e Pauline Phelippeau, na casa dos vinte, uma família de Lyon, todos entrevistados pela imprensa francesa, permitem avaliar correctamente a média de idades. Acresce que o acontecimento coincidiu com o jubileu das equipas sinodais, que reuniu, com dificuldade, no mesmo fim-de-semana, dois mil participantes supostamente vindos dos diversos dioceses do mundo. Notando-se ainda, ao observar as fotografias do jubileu das equipas sinodais, uma média de idades já grisalha e marcada pela calvície. A pastoral dos números tem os seus limites, reconhecemo-lo de boa vontade, mas importa desfazer a ideia que alguns ainda não conseguem abandonar: não, o universo tradicional não é simples resíduo de nostálgicos. Olhando verdadeiramente, o que transparece é a juventude e o seu dinamismo.

Lição n.º 2: A dimensão internacional - «Vindos de todas as nações, tribos, povos e línguas, estavam diante do trono e diante do Cordeiro.» Apocalipse 7, 9

As vinte e sete associações dedicadas à defesa da liturgia tradicional mostram que o amor pelo usus antiquior não conhece fronteiras. Nada há de mais falso que restringir o amor pela Missa de São Pio V a preocupações exclusivamente franco-americanas. Neste XIV.º peregrinação Summorum Pontificum, viu-se costa-marfinenses, filipinos e brasileiros cruzarem-se com espanhóis, nigerianos e alemães. Da Serra Leoa ou da Polónia, do outro lado do Pacífico ou dos confins do golfo de Bengala, todos os continentes estavam representados, formando uma catolicidade em estado puro e oferecendo uma fotografia de família autêntica da Tradição, sem retoques nem recurso à inteligência artificial. Como dizia um participante: «O latim, esse une!»

Lição n.º 3: O clero de novo presente -  «Dei os levitas como dom a Aarão e aos seus filhos, para que cumpram o serviço da tenda do encontro em nome dos filhos de Israel.» Números 8, 19

É forçoso reconhecer: um pontificado sucede ao outro. Não se trata aqui de afirmar que Leão XIV sepulta o que Francisco tenha iniciado em tal ou qual registo ou domínio. A prudência é necessária e o vaticanista Jean-Marie Guénois não se poupa a avisar os seus leitores para não tirarem conclusões precipitadas acerca da autorização desta Missa tradicional na basílica maior do Vaticano, no altar da Cátedra de São Pedro. No entanto, a referência feita pelo respeitado Washington Post sugere um espírito de distensão. 

Com efeito, o diário americano cita palavras de um dos mestres de cerimónias papais, don Marco Agostini: «O Cardeal Burke teve, sem dúvida, luz verde do topo: claramente, porque o Papa disse: “Deixai-os fazê-lo.”» Esta saudável permissão desinibiu, legitimamente e com felicidade, muitos clérigos para se juntarem ao cardeal Burke e participar na cerimónia. Se nos últimos anos os clérigos se tornavam raros para evitar críticas ou denúncias caluniosas, no sábado passado foram várias centenas a comparecer.

Lição n.º 4: A missa tradicional, ponte entre diversidades eclesiais - «Há diversidade de dons, mas é o mesmo Espírito; diversidade de ministérios, mas é o mesmo Senhor; diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera em todos.» I Coríntios 12, 4-6

Enquanto a polarização é precisamente o mal a combater, esta Missa tradicional concedeu um grande impulso de caridade a todas as partes envolvidas na celebração. Entre as comunidades que celebram na liturgia antiga, desde logo. Tal como nos pontificais celebrados no peregrinação de Cristandade a Chartres, a Fraternidade de São Pedro, o Instituto de Cristo Rei, o Instituto do Bom Pastor, só para citar estas congregações tradicionais, uniram-se de coração para acompanhar o Cardeal Burke ao altar. 

Mas sobretudo, ao alto da hierarquia, cinco cardeais testemunharam com a sua presença apoio entusiástico à promoção da Missa de São Pio V. O cardeal Burke, como celebrante, claro está, mas igualmente o Cardeal Zuppi, presidente da Conferência Episcopal Italiana, que pontificou as vésperas na sexta-feira, 24 de Outubro. Jean-Marie Guénois salientava que os abraços públicos e amistosos do cardeal italiano com o seu homólogo americano indicavam mudança de clima. Gestos de amizade do arcebispo de Bolonha que nada ficariam a dever aos que partilharia, quatro dias mais tarde, com Leão XIV, aos pés do Coliseu, na conclusão da Reunião Internacional de Oração pela Paz. Outro prelado presente na peregrinação, o cardeal Brandmüller, sempre sorridente e atento, que fez questão, apesar dos seus problemas de saúde, de assistir à Missa em São Pedro de Roma. 

O Cardeal Sarah esteve na véspera no colóquio Pax Liturgica para ouvir, em especial, a conferência sobre o peregrinação Feiz e Breizh. A sua presença demonstrava o interesse em todo o trabalho de valorização do desenvolvimento da liturgia tradicional no mundo. Por fim, o cardeal Simoni, albanês de 97 anos, que recebeu a púrpura cardinalícia das mãos do Papa Francisco em 2016, condenado à morte sob o regime soviético em 1963, pena depois comutada em trabalhos forçados durante quase 20 anos, impressionou vivamente a assembleia ao recitar a oração de libertação a São Miguel no coração de São Pedro de Roma. Um momento forte, como tantos que só acontecimentos destes sabem proporcionar!

Lição n.º 5: Uma investigação encoberta - «Não espalharás falso rumor. Não te juntarás ao ímpio para dar falso testemunho. Não seguirás a multidão para fazer o mal; no teu testemunho, não torcerás a justiça.» Êxodo 23, 1-3

Nas reuniões Pax Liturgica, era impossível não abordar o estrondo ocorrido em Roma no primeiro trimestre de 2025: a fuga de informação que muitos já previam como muito provável, de que a investigação junto dos bispos de todo o mundo sobre a Summorum Pontificum, cujos resultados deveriam justificar a publicação da Traditionis Custodes em 2021, teria sido falseada. Longe de teoria conspiratória, Diane Montagna detalhou, com provas, as ambiguidades das conclusões dessa investigação. Dos três mil bispos do mundo, dois mil responderam e a maioria expressou claramente o reconhecimento de uma pacificação litúrgica consequente às reformas empreendidas por Bento XVI.

Lição n.º 6: O culminar da Missa na Basílica de São Pedro - «Quando vestia os seus paramentos de glória e se cingia de seu esplendor perfeito, subindo ao santo altar, enchia de glória o recinto do santuário.» Eclesiástico 50, 11

O Céu na Terra! São muitos os testemunhos dos participantes nesta Missa pontifical celebrada no rito secular da Igreja. Todos ficaram admirados, impressionados, comovidos ou tocados. Os curiosos e turistas baixaram instintivamente a voz e muitos deles uniram-se ao recolhimento da cerimónia. As vozes do coro da basílica romana de Santa Maria aos Mártires, a mestria do cerimoniário, o canto gregoriano e a interioridade do rito foram marcantes. O serviço de ordem da basílica, embora inicialmente surpreendido pelo excesso de assistência inesperada, mostrou dedicação exemplar. O cardeal arcipreste da basílica de São Pedro, Mauro Gambetti, evidenciou especial solicitude na organização da peregrinação e alegrou-se por, novamente, se realizar a liturgia antiga na catedral. Sem dúvida, as graças divinas derramadas nessa cerimónia serão contabilizadas para o futuro.

Lição n.º 7: Summorum Pontificum, referência de concórdia - «Orai pela paz de Jerusalém: “paz aos que te amam!” Que haja paz nos teus muros, segurança nos teus palácios!» Salmo 122, 6-7

No sermão pronunciado pelo Cardeal Burke, publicado na nossa carta n.º 1293, a sua voz calma deixava perceber a suave determinação de fazer justiça aos benefícios espirituais da liturgia tridentina. Sem reivindicações nem ataques amargos, apenas o testemunho de uma missa secular que faz bem às almas. Um parágrafo, entre outros, chamou a atenção dos observadores: 

«Tendo o privilégio de participar hoje no Santo Sacrifício da Missa, não podemos deixar de pensar nos fiéis que, ao longo dos séculos cristãos, encontraram Nosso Senhor e aprofundaram n'Ele a sua vida, graças a esta forma venerável do rito romano. Muitos foram inspirados a praticar uma santidade heróica, levando até ao martírio. Aqueles de nós que têm idade suficiente para terem crescido adorando Deus segundo o Usus Antiquior, não podem evitar considerar como isso nos inspirou a manter o olhar fixo em Jesus, especialmente na resposta à nossa vocação na vida. Finalmente, não podemos deixar de agradecer a Deus pela maneira como essa forma venerável do rito romano levou à fé e aprofundou a vida de fé de tantas pessoas que pela primeira vez descobriram a sua incomparável beleza, graças à disciplina estabelecida em Summorum Pontificum. 

Agradecemos a Deus porque, graças ao Summorum Pontificum, toda a Igreja chega a compreender e a amar cada vez mais o grande dom da liturgia sagrada tal como foi transmitida numa linha ininterrupta pela sagrada Tradição, pelos Apóstolos e seus sucessores. Por meio da liturgia sagrada, a nossa adoração de Deus “em espírito e verdade”, Nosso Senhor está connosco da forma mais perfeita que pode haver nesta terra. É a expressão mais excelente da nossa vida n’Ele. Hoje, testemunhando a grande beleza do rito da missa, sejamos inspirados e fortificados para reflectir essa beleza na bondade da nossa vida quotidiana, sob a protecção materna de Nossa Senhora.» 

Sim, deixar-se transformar pela rectidão doutrinal e pelo oceano de sagrado que oferece a liturgia tridentina, eis aquilo que, em caridade, podemos desejar ao nosso próximo.

in Paix Liturgique


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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Quando um Papa veio do Purgatório pedir orações a uma Santa

Muitos cristãos passarão primeiro pelo Purgatório, a fim de serem purificados e poderem entrar sem mácula na presença santíssima de Deus.

O Papa Inocêncio III, pontífice de 1198 até 1216, foi um dos papas mais influentes da História. Foi ele que concedeu a São Francisco de Assis e ao seu pequeno grupo de seguidores a permissão para fundar a Ordem dos Frades Menores. Foi ele que convocou o IV Concílio de Latrão, no qual foi definida dogmaticamente a doutrina da transubstanciação (embora já fosse uma verdade de fé desde o início da Igreja). Desenvolveu ainda grandes esforços para combater as heresias na Europa e repelir a invasão das hordas muçulmanas. Em parte, a sua grande energia devia-se a ter sido eleito Papa com 37 anos de idade.

No entanto, após 18 anos como pontífice, ele morreu de repente. E esta não foi a última notícia que se teve dele.

No dia no que o Papa Inocêncio III morreu, ou pouco depois, ele apareceu a Santa Lutgarda de Aywieres, na Bélgica. Santa Lutgarda é considerada uma das grandes místicas do século XIII, conhecida pelos seus milagres, visões, levitação e grande talento para ensinar.

Quando o Papa Inocêncio apareceu agradeceu-lhe orações oferecidas durante a sua vida e explicou que não tinha ido directamente para o Céu. Estava no Purgatório, a sofrer a purificação por três faltas específicas que tinha cometido durante a sua vida. Inocêncio III pediu a Santa Lutgarda que orasse por ele e, a respeito do Purgatório, disse:

“É terrível! A minha pena durará o equivalente a séculos se não me ajudares. Em nome de Maria, que me obteve o favor de recorrer a ti, ajuda-me!”

Quando um um católico morre pode ir directamente para o Céu se não tiver nenhuma pena a pagar pelos seus pecados. Muitos, porém, passarão primeiro pelo Purgatório, a fim de serem purificados e poderem entrar sem mácula na presença Santíssima de Deus.

As almas que chegam ao Purgatório já não podem conseguir pelos próprios méritos livrar-se da pena da purificação. Mas nós, que ficamos neste mundo, podemos oferecer orações e penitências para aliviar o seu sofrimento. Quanto tempo devemos rezar e fazer sacrifícios por uma alma em particular? Não sabemos, mas Santo Agostinho escreveu nas suas Confissões, 10 a 15 anos depois da morte da sua mãe, Santa Mónica, que ainda pedia orações por ela.

Não existe o tempo no mundo espiritual, mas o Purgatório pode “durar” o equivalente a muitos anos do mundo material, até que a alma repare as consequências dos seus pecados já perdoados. Oremos sempre a Deus Pai para que tenha em conta as nossas orações e sacrifícios de modo a abrandar as penas das almas do Purgatório.

adaptado de Aleteia


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terça-feira, 11 de novembro de 2025

D. Athanasius responde ao documento sobre Nossa Senhora Co-Redentora e Medianeira

Eles Não Podem Ter-se Enganado: A Voz dos Santos, Doutores e do Magistério Ordinário da Igreja ao Afirmar Maria como 'Co-Redentora' e 'Medianeira de Todas as Graças'

Ao longo do tempo, o Magistério Ordinário, juntamente com numerosos Santos e Doutores da Igreja, ensinou as doutrinas marianas da Co-redenção e da Mediação, empregando, entre outras expressões, os títulos específicos de “Co-redentora” e “Medianeira de Todas as Graças”. Consequentemente, não se pode sustentar que o Magistério Ordinário, juntamente com Santos e Doutores da Igreja ao longo de tantos séculos, pudesse ter induzido os fiéis ao erro mediante um uso reiteradamente impróprio desses títulos marianos. 

Além disso, ao longo dos séculos, essa doutrina mariana e o uso desses títulos exprimiram também o sensus fidei — o sentido da fé dos fiéis. Portanto, ao aderirem ao ensinamento tradicional do Magistério Ordinário relativo à Co-redenção e à Mediação, e ao reconhecerem a legitimidade dos títulos “Co-redentora” e “Medianeira de Todas as Graças”, os fiéis não se afastam do caminho recto da fé, nem de uma piedade sã e bem informada para com Cristo e Sua Mãe.

Na Igreja primitiva, S. Ireneu, Doutor do século II, lançou os fundamentos essenciais das doutrinas marianas da Co-redenção e da Mediação, que mais tarde seriam desenvolvidas por outros Doutores da Igreja e pelo Magistério Ordinário dos Romanos Pontífices. Ele escreveu: “Maria, ao prestar obediência, tornou-se causa de salvação, tanto para si mesma como para todo o género humano.” [1]

Entre as numerosas afirmações do Magistério Ordinário dos Papas acerca das doutrinas marianas da Co-redenção e da Mediação, e dos correspondentes títulos “Corredentora” e “Medianeira de Todas as Graças”, pode citar-se, em primeiro lugar, a encíclica Adjutricem Populi, de Leão XIII, na qual o Papa se refere à Nossa Senhora como cooperadora na obra da Redenção e dispensadora da graça que dela dimana. Ele escreve: “Aquela que esteve tão intimamente associada ao mistério da salvação humana está igualmente associada à distribuição das graças que, por todos os tempos, fluirão da Redenção.” [2]

De modo semelhante, na encíclica Jucunda Semper Expectatione, Leão XIII fala da mediação de Maria na ordem da graça e da salvação. O Papa escreve: “O recurso que temos a Maria na oração decorre do ofício que Ela continuamente desempenha junto do trono de Deus como Mediadora da graça divina; sendo, pelo seu merecimento e dignidade, a mais agradável a Ele, e, por conseguinte, superior em poder a todos os anjos e santos do Céu... S. Bernardino de Sena afirma: 'Toda a graça concedida ao Homem tem três graus de ordem; pois, de Deus é comunicada a Cristo, de Cristo passa à Virgem, e da Virgem desce até nós’... Que Deus, ‘Que na Sua mais misericordiosa Providência nos deu esta Mediadora’ e ‘decretou que todo o bem nos chegasse pelas mãos de Maria’ (S. Bernardo), receba propício as nossas comuns preces e realize as nossas comuns esperanças... A Ti elevamos as nossas orações, pois és a Medianeira, poderosa e compassiva, da nossa salvação... pela Tua participação nas Suas inefáveis dores... sê compassiva, ouve-nos, ainda que indignos sejamos!” [3]

S. Pio X apresentou uma exposição teológica sintética da Co-redenção na encíclica Ad Diem Illum, ensinando que, em virtude da Sua maternidade divina, Maria merece pela caridade aquilo que Cristo, como Deus, merece por justiça estrita — a saber, a nossa redenção —, sendo também Ela a dispensadora de todas as graças. O Papa escreve: “Quando chegou a hora suprema do Filho, junto à Cruz de Jesus estava Maria, Sua Mãe, não apenas contemplando o cruel espectáculo, mas regozijando-se porque o Seu Filho Unigénito era oferecido pela salvação do género humano, e participando de tal forma na Sua Paixão, que, se fora possível, Ela teria suportado de boa vontade todos os tormentos que Seu Filho padeceu. E desta comunhão de vontade e sofrimento entre Cristo e Maria, Ela mereceu tornar-se dignissimamente a Reparadora do mundo perdido e a Dispensadora de todos os dons que o nosso Salvador nos adquiriu pela Sua Morte e pelo Seu Sangue... Pois Maria excede a todos em santidade e união com Jesus Cristo, e foi associada por Ele à obra da redenção; Ela merece para nós de congruo, na linguagem dos teólogos, aquilo que Jesus Cristo merece de condigno, sendo a suprema Ministra da distribuição das graças... Foi concedido à augusta Virgem ser a Mediadora e Advogada mais poderosa de todo o mundo junto de Seu Divino Filho. A fonte é, pois, Jesus Cristo. Mas Maria, como explica S. Bernardo, é o canal; ou, se preferirmos, a parte de união cuja função é ligar o corpo à cabeça e transmitir ao corpo as influências e determinações da cabeça — queremos dizer: o pescoço. Sim, diz S. Bernardino de Sena, ‘Ela é o pescoço da nossa Cabeça, por meio do qual Ele comunica ao Seu corpo místico todos os dons espirituais.’” [4]

De igual modo, Bento XV ensina: “Unindo-se à Paixão e morte do Seu Filho, sofreu até à morte... para aplacar a divina justiça; na medida em que Lhe foi possível, sacrificou o Seu Filho — de modo que se pode justamente afirmar que Ela, juntamente com Cristo, redimiu o género humano.” [5]
Este é o equivalente ao título de Co-redentora.  

Pio XI afirma que, em virtude da Sua íntima associação à obra da Redenção, Maria merece com justiça o título de Corredentora. Ele escreve: “Por necessidade, o Redentor não podia deixar de associar a Sua Mãe à Sua obra. Por esta razão, invocamo-La sob o título de Co-redentora. Ela deu-nos o Salvador, acompanhou-O na obra da Redenção até à própria Cruz, partilhando com Ele as dores da agonia e da morte, nas quais Jesus consumou a Redenção do género humano.” [6]

Na encíclica Mediator Dei, Pio XII sublinha a universalidade do papel de Maria como dispensadora de graça, dizendo: “Ela dá-nos o Seu Filho e com Ele todo o auxílio de que necessitamos, pois Deus ‘quis que tudo recebêssemos por meio de Maria’ (S. Bernardo).” [7]

S. João Paulo II afirmou repetidas vezes a doutrina católica do papel de Maria na Redenção e na mediação de todas as graças, empregando os títulos 'Co-redentora' e 'Medianeira de Todas as Graças'. Entre outras, disse: “Maria, embora concebida e nascida sem mancha de pecado, participou de modo admirável nos sofrimentos do Seu divino Filho para ser Co-redentora da Humanidade.” [8] “De facto, o papel de Maria como Co-redentora não cessou com a glorificação do Seu Filho.” [9] “Recordemos que a mediação de Maria se define essencialmente pela Sua maternidade divina. O reconhecimento do Seu papel de mediadora está, por conseguinte, implícito na expressão ‘nossa Mãe’, que apresenta a doutrina da mediação mariana acentuando a sua maternidade. Finalmente, o título ‘Mãe na ordem da graça’ explica que a Santíssima Virgem coopera com Cristo no renascimento espiritual da Humanidade.” [10]

Relativamente à verdade expressa pelo título mariano de Mediadora de Todas as Graças, Bento XVI ensinou: “A Tota Pulchra, a Virgem Puríssima, que concebeu no Seu seio o Redentor do género humano e foi preservada de toda a mancha do pecado original, deseja ser o selo definitivo do nosso encontro com Deus nosso Salvador. Não há fruto de graça na História da Salvação que não tenha, como instrumento necessário, a mediação da Nossa Senhora.” [11]

S. John Henry Newman, recentemente proclamado Doutor da Igreja por Sua Santidade Leão XIV, defendeu o título de Co-redentora perante um prelado anglicano que o recusara. Declarou: “Quando vos viram, com os Padres, chamá-La Mãe de Deus, Segunda Eva, Mãe de todos os viventes, Mãe da Vida, Estrela da Manhã, Novo Céu Místico, Ceptro da Ortodoxia, Mãe Imaculada de Santidade, e outros semelhantes, ter-vos-iam julgado mal compensados se apenas protestásseis contra o facto de Ela ser chamada Co-redentora.” [12]

O termo Co-redentora, que por si só denota uma simples cooperação na Redenção de Jesus Cristo, tem, há vários séculos, no vocabulário teológico e no ensinamento do Magistério Ordinário, o sentido específico de uma cooperação secundária e dependente. Consequentemente, o seu uso não apresenta dificuldade séria, desde que acompanhado de expressões clarificadoras que ressaltem o papel secundário e dependente de Maria nessa cooperação. [13]

Tendo presente o ensinamento acerca do significado e uso próprio dos títulos Co-redentora e Medianeira de Todas as Graças, tal como tem sido consistentemente apresentado pelo Magistério Ordinário e sustentado por numerosos Santos e Doutores da Igreja ao longo de largo período, não há risco sério em empregar esses títulos de modo apropriado. Com efeito, sublinham o papel da Mãe do Redentor, que, pelos méritos de Seu Filho, está “unida a Ele por vínculo estreito e indissolúvel” [14], e é, assim, também a Mãe de todos os redimidos. [15]

Em certas versões da oração Sub Tuum Praesidium, os fiéis têm invocado confiadamente Nossa Senhora ao longo dos séculos, chamando-a: “Domina nostra, Mediatrix nostra, Advocata nostra.” 

E S. Efrém, o Sírio, Doutor do século IV, venerado pela Igreja como a “Harpa do Espírito Santo”, orou deste modo:  “Minha Senhora, Mãe de Deus Santíssima e cheia de graça. Tu és a Esposa de Deus, por Quem fomos reconciliados. Depois da Trindade, Tu és a Senhora de todas as coisas; depois do Paráclito, Tu és outro consolador; e depois do Mediador, Tu és a Medianeira do Mundo inteiro, a salvação do universo. Depois de Deus, Tu és toda a nossa esperança. Eu Te saúdo, ó grande Medianeira da paz entre os homens e Deus, Mãe de Jesus nosso Senhor, que é o amor de todos os homens e de Deus, ao Qual sejam honra e bênção com o Pai e o Espírito Santo. Ámen.” [16]

D. Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar de Astana

[1] Adv. Haer., III, 22, 4.[1]
[2] 5 de Setembro de 1895.
[3] 8 de Setembro de 1894.
[4] 2 de Fevereiro de 1904.
[5] Carta Apostólica Inter Sodalicia, 22 de Março de 1918.
[6] Discurso aos peregrinos em Vicenza, Itália, 30 de Novembro de 1933.
[7] 20 de Novembro de 1947.
[8] Audiência Geral de 8 de Setembro de 1982.
[9] Homilia na Missa no santuário mariano em Guayaquil, Equador, 31 de Janeiro de 1985.
[10] Audiência Geral de 1 de Outubro de 1997.
[11] Homilia na Santa Missa e Canonização de Frei António de Sant’Ana Galvão, OFM, 11 de Maio de 2007.
[12] Carta dirigida ao Rev. E. B. Pusey, D.D., por ocasião do seu Eirenicon. Algumas dificuldades sentidas pelos Anglicanos no ensinamento católico, Volume 2, Longmans, Green, e Co., Nova Iorque, 1900, p. 78.
[13] Cf. Dictionnaire de la Théologie catholique, IX, art. Marie, col. 2396.
[14] Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, 53.
[15] Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, 63.
[16] Oratio ad Deiparam, cf. S.P.N. Ephraem Syri Opera Omnia quae exstant… opera et studio Josephi Assemani, Romae 1746, tomus tertius, p. 528ff.


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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Santo André Avelino, um sacerdote incansável

Lancellotto Avellino nasceu no ano 1521, em Castronuovo (hoje, Castronuovo di Sant'Andrea), uma província do então Reino de Nápoles. Os pais, Giovanni Avellino e Margherita Appella, muito religiosos, criaram os filhos, Lancelloto e mais dois irmãos, dentro dos ensinamentos de Cristo. 

Na época oportuna, enviaram o pequeno Lancellotto para estudar com o tio, Cesare Appella, pároco da vizinha Senise. Lá ele começou sa ua vida religiosa exercitando-se no apostolado catequético dos jovens da cidade. A 17 de Agosto de 1537 foi ordenado sub-diácono. Em 1545, já era sacerdote.

Dois anos depois, seguiu para a cidade de Nápoles, onde, na universidade, se diplomou em direito canónico, in utroque iure. No exercício da profissão, assistindo à defesa de um sacerdote, decepcionou-se com as artimanhas legais permitidas e, amargurado com a situação, abandonou o processo e a carreira, em 1551.

Prosseguiu o seu apostolado como auxiliar do Vigário Geral de Nápoles, sendo um exemplo pela humildade, disciplina e dedicação total à caridade, atendendo com amor aos pobres e aos doentes. Só deixou de rezar seis horas por dia quando recebeu a incumbência de vigiar os conventos teatinos, que estavam submetidos à arquidiocese a que pertencia. 

Além disso, tornou-se evangelizador e confessor de Nápoles e de cidades vizinhas. Mas, devido à sua actuação no combate aos abusos dos conventos, sofreu dois atentados, em 1555, dos quais só escapou vivo por milagre.

No ano seguinte, Lancellotto entrou para a Ordem dos Teatinos e, a 25 de Janeiro de 1558, vestiu o hábito, tomando o nome de André Avelino. Foi um reformador da sua ordem.

As suas regras para ser um bom superior eram:

- Agir seguindo a sabedoria, com firmeza e doçura;
- Imitar o Senhor, que primeiro ensinou com o exemplo e depois, com a palavra;
- Manter presente a advertência de São Bernardo aos superiores: "vejam tudo, dissimulem (no sentido de ser discreto) tudo, corrijam pouco";
- Valorar a boa vontade dos confrades, apreciar as suas obras e fazer de exemplo para que todos se espelhem nele e se animem a copiá-lo.

Durante toda a vida dedicou-se aos pobres, encarcerados e agonizantes, sendo também director espiritual. Mas ainda se achava pecador e pedia mais sofrimento a Deus nas suas orações. Trabalhou juntamente com São Carlos Borromeu em Milão e arredores. 

Intensa foi a sua actividade epistolar (correspondência) que conta com mais de mil cartas. Escreveu numerosos tratados e opúsculos de ascética e de exegese bíblica. O epistolário foi publicado em 1731, em dois volumes. Deste escritos consta a grande devoção à Virgem Maria. As suas principais fontes de inspiração foram Santo Agostino, São João Crisóstomo, São Bernardo e São Tomás de Aquino. Entre os seus discípulos, o mais famoso é o padre Lorenzo Scupoli, teatino autor do livro 'Combate Espiritual'.

Santo André morreu no dia 10 de Novembro de 1608, quando estava para iniciar o Santo Sacrifício da Missa. Ele foi acometido de apoplexia e, após ter recebido o Santo Viático, morreu aos 88 anos de idade.

O processo de beatificação começou em 1614, sendo beatificado pelo Papa Urbano VIII a 14 de Outubro de 1624, e canonizado pelo Papa Clemente XI a 22 de Maio de 1712. Repousa na Basílica de São Paulo Maior, em Nápoles. de

Santo André Avelino é invocado pelos devotos como protector celestial contra a morte repentina.

in Pale Ideas


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domingo, 9 de novembro de 2025

Dedicação da Basílica de São João de Latrão

No dia 9 de Novembro a Igreja comemora a dedicação da Basílica do Santíssimo Salvador, mais conhecida por Basílica de São João de Latrão. Deixamos aqui algumas particularidades desta igreja: a Sé episcopal do Bispo de Roma, Mãe e Cabeça de todas as igrejas do Mundo

Pavilhão Basilical Lateranense

O Pavilhão Basilical é a insígnia heráldica distintiva da Arquibasílica Papal do Santíssimo Salvador e dos Santos João Baptista e João Evangelista em Latrão.

Enquanto Catedral do Papa, Bispo de Roma, esta é mãe e a mais importante entre todas as igrejas católicas de Roma e do mundo. Este seu particularíssimo estatuto é representado pelo Pavilhão, que tem a forma de uma umbela, um grande chapéu-de-sol de veludo e brocardos amarelos e encarnados (as cores Papais, sucessivamente modificadas pelo Papa Pio VII para branco e amarelo), com pendentes de cores alternadas.

Na realidade, pretende-se que o Pavilhão assuma a forma de uma tenda, representação simbólica seja da Igreja em caminho – que se desloca enquanto Povo que segue Cristo (em procissão) – seja da bíblica “Arca da Aliança” que era transportada pelo Povo de Israel a caminho da Terra Prometida. Evoca também a tenda militar imperial denominada “siníquio” (do latim medieval sinnichium ou sinichium) dentro da qual, na noite de 27 de Outubro do ano de 312, o Imperador Constantino teve a visão que lhe ordenava a apôr aos lábaros (estandartes) do seu exército um sinal cristológico[1]. 

O Pavilhão Basilical simbolizava, assim, quer a Igreja Católica Romana, quer a autoridade Papal sobre esta, e é precisamente com este último significado que o Papa Alexandre VI Bórgia começou a utilizá-lo regularmente, como símbolo heráldico do poder temporal do Papado.

De um mesmo Pavilhão em seda amarela e encarnada fez uso o Reverendíssimo Capítulo Lateranense, e foi concedido um particular privilégio heráldico a todas as basílicas romanas (maiores e menores) dentro e fora da Urbe.

Desde 1521 este é o principal símbolo heráldico da Sede Vacante e do Cardeal Camerlengo da Santa Igreja Romana, precisamente porque o poder temporal continua a existir também nesse período de interregno entre dois Papas.

Sino estacionário lateranense

O sino estacionário basilical é o segundo distintivo próprio da Arquibasílica Papal do Santíssimo Salvador e dos Santos João Baptista e João Evangelista em Latrão.

Este consiste numa campainha montada numa estrutura de madeira em talha dourada (segunda metade do séc. XVII) com a efígie do Santíssimo Salvador e os símbolos do Papado (tiara e chaves cruzadas) e era transportado para abrir o cortejo processional, seguido do Pavilhão Basilical, do Pavilhão do Reverendíssimo Capítulo Lateranense e das duas antiquíssimas Cruzes Estacionárias Lateranenses. Este era tocado constantemente com a dupla função de chamar os fiéis e de sinalizar o passo do cortejo. 

[1] Trata-se do monograma de Cristo, ou cristograma, composto pelas letras “chi” e “roh”, “X” e “P”, as iniciais de “Cristo” em grego.


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sábado, 8 de novembro de 2025

Quis ut Virgo?

A 16 de Outubro de 1793 aconteceu o que foi talvez o crime mais repugnante da Revolução Francesa: a execução da Rainha de França, Maria Antonieta, após um julgamento-farsa no Tribunal Revolucionário.

Plinio Corrêa de Oliveira escreveu acerca de Maria Antonieta: «Existem certas almas que só são grandes quando as rajadas da desgraça sopram sobre elas. Maria Antonieta, que foi fútil como princesa e imperdoavelmente frívola na sua vida de rainha, diante do turbilhão de sangue e miséria que inundou a França, transformou-se de modo surpreendente; e o historiador verifica, tomado pelo respeito, que da rainha nasceu uma mártir e da boneca uma heroína».

A 21 de Janeiro fora guilhotinado o Rei de França, Luís XVI. O Papa Pio VI, na alocução Quare lacrymae, de 17 de Junho de 1793, reconheceu no sacrifício do soberano «uma morte votada em ódio à religião católica», atribuindo-lhe «a glória do martírio». A mesma glória, podemos dizer, tocou a Maria Antonieta, culpada apenas por representar – com a sua própria presença – o princípio da realeza cristã diante do ódio da Revolução.

O escritor britânico Edmund Burke (1729-1797), num dos mais belos trechos das suas Reflexões sobre a Revolução Francesa (1791), escreve: «Já passaram dezasseis ou dezassete anos desde quando vi pela primeira vez a Rainha de França, então Delfina, em Versalhes, e certamente nunca outra visão mais graciosa visitou esta terra, que ela parecia apenas tocar... Oh! que revolução!... Jamais sonhei viver o suficiente para ver tal desastre abater-se sobre ela numa nação de homens tão galantes, numa nação de homens de honra e cavaleiros. Na minha imaginação via dez mil espadas erguerem-se repentinamente para vingar pelo menos um olhar que a ameaçasse de insulto...»

A 4 de Novembro de 2025, na casa generalícia dos jesuítas, foi apresentado Mater Populi fidelis, uma “nota doutrinal” do Dicastério para a Doutrina da Fé, cujo prefeito é o Cardeal Víctor Manuel Card. Fernández.

O documento conta com oitenta parágrafos, dedicados à «correcta compreensão dos títulos marianos», que pretendem esclarecer «em que sentido certas expressões relativas à Virgem Maria são aceitáveis ou não», colocando-a «na justa relação com Cristo, único Mediador e Redentor».

É com profunda pena que lemos este texto que, por detrás de um tom melífluo, esconde um conteúdo venenoso...

Maria Antonieta representava a realeza terrena, reflexo da divina, mas frágil como tudo o que é humano: o seu trono desabou sob a fúria revolucionária. Maria Santíssima, porém, é Rainha universal – não por direito humano, mas por graça divina. O seu trono não está num palácio, mas no coração de Deus.

«O Altíssimo – afiança São Luís Maria Grignion de Montfort – desceu perfeita e divinamente através da humilde Maria até nós, sem perder nada da sua divindade e santidade. E é por Maria que os pequeníssimos devem subir perfeita e divinamente ao Altíssimo, sem temer coisa alguma».

Os homens podem tentar “decapitá-la”, reduzindo-a a simples mulher, mas Maria permanece Mãe de Deus, Imaculada, sempre Virgem, Assunta ao Céu, Rainha do Céu e da Terra, Corredentora e Mediadora universal de todas as graças...

Edmund Burke lamentava que não existissem dez mil espadas prontas para defender a Rainha Maria Antonieta, «perante um único olhar que a ameaçasse de insulto»... Aos pés do seu trono: «Quem como a Virgem?».

Este texto mantém o estilo e conteúdo original, refletindo desde a execução da Rainha Maria Antonieta até reflexões actuais sobre Maria Santíssima e a recente nota do Dicastério para a Doutrina da Fé sobre os títulos marianos.

Professor Roberto de Mattei in Corrispondenza Romana


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quinta-feira, 6 de novembro de 2025

A vida do Santo Condestável

São Nuno de Santa Maria nasceu no dia 24 de Junho de 1360, em Cernache do Bom Jardim, filho ilegítimo de D. Álvaro Gonçalves Pereira, que foi Prior do Priorato do Crato, dos célebres Cavaleiros de São João de Jerusalém e de Ilia, por quem Nuno conservaria sempre um terno afecto. A sua infância e a sua adolescência decorreram neste ambiente entre cavalheiresco e profundamente religioso que havia nestes grupos nos reinos do baixo medievo da Europa. 

Imbuído do ideal de Galaad, um dos cavaleiros da mesa redonda que acompanhavam o mítico Rei Artur, quis permanecer celibatário, mas, para não contrariar o seu pai, veio a casar-se com D.ª Leonor de Alvim, com quem teria três filhos e com quem teve uma vida matrimonial feliz. O casamento teve lugar a 15 de Agosto, festa da Assunção de Maria, de 1376. Dois dos seus filhos morreram crianças e apenas a terceira, D.ª Beatriz, chegaria à idade adulta, casando-se com D. Afonso, o filho do rei D. João I, a quem Nuno, seu aio, tinha servido sempre com valentia e fidelidade.

O jovem Nuno sobressaiu rapidamente na corte, para a qual foi destinado para o serviço pessoal do rei Fernando desde a adolescência, quando tinha apenas treze anos. A sua nobreza de ânimo, a sua valentia, a lealdade para com o rei e o ideal de pureza que parecia ter-se traçado desde criança, a imitação do casto herói Galaad, chamaram à atenção quer da família real quer dos outros cortesãos.

A morte do rei D. Fernando de Portugal originou um problema dinástico, algo muito frequente nos reinos da Península Ibérica, nos tempos da Reconquista. Alguns cavaleiros portugueses (alguns irmãos de Nuno, inclusivamente) defendiam o direito ao trono de Beatriz, filha do rei Fernando, casada com o rei de Castela, o que provavelmente teria suposto a incorporação da coroa portuguesa no reino de Castela, que se ia configurando – juntamente com o de Aragão – como o reino mais forte da Península Ibérica. Mas outros muitos cavaleiros lusitanos, entre eles Nuno, defendiam o direito ao trono de João, irmão do rei Fernando. Havia também interesses internacionais e não faltaram cavaleiros franceses e ingleses que ajudavam um ou outro lado. Não demorou muito a rebentar uma guerra entre os dois reinos, provocada pelo problema da sucessão dinástica. 

A guerra em si durou vários anos, com períodos de relativa calma. Em Abril de 1384, as tropas portuguesas (ao serviço de D. João) vencem a facção rival, na batalha de Atoleiros (o que originou, pouco mais tarde, a subida ao trono de João I, que nomearia Nuno como seu Condestável). Um ano mais tarde, no dia 14 de Agosto de 1385 (em vésperas da festa da Assunção de Nossa Senhora), as tropas comandadas por Nuno Álvares Pereira derrotaram os seguidores do rei de Castela, na memorável batalha de Aljubarrota, e, pouco depois, em Valverde (já dentro do reino de Castela), o que fez com que Nuno ganhasse uma grande fama como herói nacional. Ainda que a guerra se tenha prolongado por algum tempo, e inclusivamente tivessem havido escaramuças anos mais tarde, a vitória já estava do lado português. 

A paz definitiva seria assinada em 1411. Pode ser significativo da fama que Nuno ganhou como herói nacional e como Condestável o facto de que Luís de Camões, o grande poeta português, incluísse uma elogiosa referência ao nosso homem, no canto IV do seu célebre poema épico Os Lusíadas, obra cimeira da literatura portuguesa do Renascimento. Também na vizinha Espanha vários autores dos séculos XVI e XVII (Calderón de la Barca ou Tirso de Molina, entre outros) louvaram a nobreza e a heroicidade do já mítico Condestável.

Mas, pouco mais tarde, a desgraça abateu-se sobre o Condestável. Em 1387, morre a sua esposa, D.ª Leonor de Alvim, que residia no Porto com a filha dos dois. Depois, o ainda jovem Nuno negou-se a contrair novo casamento. A vida de piedade e penitência (que sempre tinha tido) acentua-se sobremaneira e o Condestável, herói de tantas batalhas, famoso guerreiro ao serviço do rei, vai, a pouco e pouco, adquirindo a reputação de homem piedoso e santo.

Há que situar, nestes anos, a sua intervenção decisiva para a construção (entre outros templos e conventos) do convento e da igreja dos carmelitas, em Lisboa, cumprindo assim uma promessa votiva feita a Nossa Senhora. Consta que teve contacto com a Ordem através de um antigo companheiro de armas que se tinha feito carmelita no convento de Moura, D. João Gonçalves, e do Frei Afonso de Alfama, Vigário da Ordem em Portugal, com quem parece que tinha grande confiança e amizade. Foi escolhido, para localização do dito convento, um dos lugares mais altos de Lisboa. As obras duraram mais de oito anos. Os carmelitas, vindos do convento de Moura, instalaram-se no celebérrimo “Carmo” de Lisboa no dia 15 de Agosto (mais uma vez) de 1397, onde permaneceram até 1755, data em que o templo foi praticamente destruído pelo terramoto de Lisboa.

Em 1415, Nuno viria ainda a ter tempo de participar numa nova campanha portuguesa, desta vez para além do estreito de Gibraltar, em Ceuta, comandando e contribuindo com a sua experiência militar na expedição portuguesa que se dirigia para o referido lugar do Norte de África. Nuno, com 55 anos, sentia-se já cansado. Pouco depois aconteceu a morte da sua filha, o que provavelmente acelerou a sua decisão de se afastar do mundo e de ter uma vida totalmente entregue à penitência, à piedade e à oração.
Deste modo, em Agosto de 1423, o Condestável, figura admirada e de grande prestígio, decide, diante do espanto geral, ingressar no Convento do Carmo, que ele mesmo tinha fundado, e levar uma vida de total penitência e austeridade, como irmão donato. 

No dia 15 de Agosto, festa da Assunção de Nossa Senhora e data à que parece que a vida de Nuno estava intimamente ligada, vestiu o hábito Carmelita, tomando o nome de Frei Nuno de Santa Maria. Apesar das pressões de toda a ordem, recusou privilégios ou mitigações da austeridade conventual. Por intervenção de D. Duarte (filho de João I, o rei a quem Nuno fielmente tinha servido durante anos), convenceu-se, ao menos, que não fosse para um convento longínquo, como era seu desejo, para evitar visitas e homenagens que iam contra a sua vontade de total penitência e humildade. Também conseguiu o príncipe que Nuno renunciasse ao seu desejo de mendigar para o convento pelas ruas de Lisboa, como faziam os irmãos donatos.

Prova da sinceridade e da firmeza da sua vontade foi o facto de que sempre recusou ser chamado doutra maneira que não “Frei Nuno de Santa Maria”, recusando qualquer tipo de título de nobreza. Mais ainda, quando o príncipe D. Duarte quis que conservasse o título de Condestável, Nuno respondeu com humildade, mas com firmeza: o Condestável morreu e está enterrado num santuário…

Depois de oito anos de vida de penitência e de grande austeridade, Frei Nuno de Santa Maria morreu em Lisboa, em 1431. O seu funeral constituiu uma enorme manifestação de dor, quer por parte da nobreza e da família real (que tinham uma grande dívida de gratidão para com aquele nobre cavaleiro vencedor no campo da batalha), quer por parte dos carmelitas e de tantos devotos, que viram nele um modelo de penitência, de humildade e de desprezo das galas e honras deste mundo.

Cronologia da vida de Santo Condestável

1360: Nuno Álvares Pereira nasce em Castelo do Bonjardim, Santarém, (ou Flor da Rosa?) filho do prior da Ordem dos Hospitalários.
1361: É legitimado por D. Pedro I
1373: Entra na Corte de D. Fernando e torna-se escudeiro da rainha D. Leonor Teles. Em breve é armado cavaleiro.
1376: A 15 de Agosto casa com d. Leonor de Alvim, de quem vem a ter uma filha, D. Beatriz.
1383: Morre D. Fernando. D. Leonor Teles manda proclamar a filha e o genro, D. João de Castela, sucessores do trono de Portugal. Nuno Álvares Pereira distingue-se no partido patriótico que incita D. João, Mestre de Avis, a chefiar a revolta contra os castelhanos. É nomeado fronteiro entre Tejo e Guadiana.

1384: Vence os castelhanos na Batalha dos Atoleiros.
1385: D. João I de Portugal, entretanto aclamado rei, nomeia-o Condestável do reino. A 14 de Agosto vence na Batalha de Aljubarrota. Recebe numerosos títulos e domínios, entre os quais o Condado de Ourém e o Condado de Arraiolos.
1388: Começa a construção da capela de S. Jorge, em Aljubarrota.
1389: Começa a construção do Convento do Carmo, em Lisboa.
1393: Partilha com os companheiros de armas muitas das suas terras.
1397: Primeiros carmelitas vêm viver para o Convento do Carmo.
1401: Fim das hostilidades com Castela.

1414: Morre a filha, D. Beatriz. Pensa tornar-se carmelita.
1415: Participa na conquista de Ceuta.
1422: Reparte pelos netos os seus títulos e domínios.
1423: Professa no Convento do Carmo a 15 de Agosto. Toma o nome de Frei Nuno de Santa Maria. Dedica-se a actos de piedade e de benemerência. Ainda em vida é chamado Santo Condestável pelo povo.
1 de Novembro de 1431: Morre em Lisboa.
1641: As cortes pedem ao Papa Urbano VIII a sua beatificação. o pedido é renovado várias vezes ao longo dos anos.
1918: O Papa Bento XV confirma o culto do Santo Condestável; a sua Festa celebra-se no dia 6 de Novembro.
2009: São Nuno é canonizado pelo Papa Bento XVI, em 26 de Abril e sua festa é a 6 de Novembro.

Carlos Jorge Dias Fernandes


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quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Festa das Santas Relíquias

Depois de ter celebrado o dia de todos os Santos, a festa das santas almas que entraram no Céu, a Igreja honra hoje, dia 5 de Novembro, as santas relíquias dos seus corpos, que estão na terra até ao momento da ressurreição gloriosa.

Desde os primeiros tempos da Igreja celebravam-se os Santos Mistérios nos túmulos dos Mártires nas Catacumbas, como prova de que esses Santos tinham misturado o seu sangue ao da Vitima do Calvário. Mais tarde, em Roma, construiram-se templos grandiosos, grandes relicários, abrigando a sepultura dos mártires celebres. 

Os restos dos que tinham assim confessado a sua fé eram colocados sob o altar-mor, ou altar da confissão, das basílicas que lhes eram consagradas. Daí o uso da trasladação das relíquias dos mártires, que é uma das partes essenciais da cerimónia da Dedicação de uma igreja. Assim como o costume de colocar as relíquias dos santos mártires numa pequena cavidade da pedra do altar, chamada túmulo. 

É por este motivo que a Missa das Santas Relíquias, datando do século XIX, é composta, assim como o oficio desse dia, em grande parte, de trechos tirados do Comum dos Mártires, e o Sacerdote reveste-se de paramentos vermelhos. 

Assim como uma virtude sobrenatural saia de Jesus e curava os que dele se aproximavam, os Santos que gozam de Deus no Céu podem, através das suas relíquias que ficaram na terra operar maravilhas: expulsar os demónios, curar os enfermos, dar vista aos cegos, purificar os leprosos, expelir as tentações e dar-nos todos os dons excelentes que descem de Deus.

D. Gaspar Lefebvre in 'Missal Quotidiano' (1963)


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terça-feira, 4 de novembro de 2025

Nossa Senhora é a Medianeira de TODAS as graças?

Maria é a Medianeira de Todas as Graças? Esta é uma questão de duas partes. Primeiro, Maria é "medianeira"? (o sufixo latino -tor denota o agente masculino e o -trix latino denota o agente feminino - como embaixador e embaixatriz - Mediador e Mediatriz [N.T.: no português tradicionalmente usa-se medianeira em vez de mediatriz]) Segundo, se ela é uma medianeira, é medianeira de todas as graças?

Maria é uma medianeira?
Antes de falar sobre este nome, é importante confirmar logo no início que a mediação de Maria não viola as palavras de São Paulo no que toca ao sacerdócio medianeiro de Jesus Cristo, quando escreve: “Porque só há um Deus, e só há um Mediador entre Deus, e os homens que é Jesus Cristo homem” (1Tim 2, 5)

Cristo é o único mediador entre Deus e os homens porque Ele é totalmente Deus e totalmente homem. Visto que Ele se ofereceu a Si mesmo como um sacrifício perfeito a Deus, só Ele sozinho pode redimir a humanidade do pecado. No entanto, São Lucas recorda que Santo Simeão profetizou a Maria que também ela iria sofrer com o Seu divino Filho: “..e será esta uma espada que trespassará a tua alma, a fim de serem revelados os pensamentos que muitos terão escondidos nos corações” (Lucas 2, 35).

Os Padres da Igreja identificaram a "espada que trespassará" a alma de Maria como o momento em que Maria viu o seu Filho morrer na cruz, e ainda mais quando pegou nos braços o Seu corpo frio e sem vida. A sua presença silenciosa e materna, em conjunto com o sacrifício do sumo sacerdócio de Cristo, envolve-a no sacrifício de Cristo de uma maneira única. Considerem isto: o Filho de Deus adquiriu a Sua carne e sangue a partir da carne e do sangue dela. Jesus pôde morrer por nós porque ela Lhe deu um corpo.

Jesus e Maria na cruz são o Adão e a Eva redemptores. Eva uma vez olhou para uma árvore para obter o fruto contra a lei. Agora Maria, como a Nova Eva, olha para a árvore onde está "o fruto do Seu ventre". Ela não clama pelos direitos deste Fruto, mas oferece-O com toda a vontade ao Pai. O Novo Adão está suspenso na madeira por cada pecador. A Nova Eva fica lá em tristeza.

A mediação de Maria é baseada na sua íntima união e consentimento à Paixão e Morte de Cristo. Mais ainda, encontramos na Escritura que Jesus vem ao mundo através de Maria, literalmente. Sta. Isabel e o seu bébé, S. João Baptista, enchem-se do Espírito Santo quando Sta. Isabel ouve a voz de Maria. Jesus faz o Seu primeiro milagre em Caná sob o pedido de Maria. E mais, Maria está presente no Pentecostes, quando o Espírito Santo desce sobre o Apóstolos. Tal como a voz de Maria foi o instrumento que levou a graça a Sta. Isabel, também Maria é o instrumento pessoal pelo qual as graças fluem de Cristo para nós. S. Bernardo de Claraval chamava-lhe "aqueduto de graça".

A Festa Litúrgica: Medianeira de Todas as Graças
Em 1921, o Papa Bento XV, respondendo a petições de bispos da Bélgica, estabeleceu o dia da festa anual de "Maria Medianeira de Todas as Graças". Esta festa foi incluída no Missale Romanum sob o título "Omnium Gratiarum Mediatricis" para a data de 31 de Maio. Se tiverem um Missal em Latim pré-conciliar, normalmente conseguem encontrá-la lá (procurem a Missae pro aliquibus locis). Dois dos meus missais incluem a festa.

A primeira leitura para esta festa é Isaías 55, 1-5 e o Gradual é a famosa passagem de Eclesiástico: "Eu sou a mãe do amor formoso, do temor, da ciência e da santa esperança. Em mim está toda a graça do caminho e da verdade, em mim está toda a esperança de vida e de virtude.” (Sir 24, 24-25) A leitura do Evangelho para a festa são os acontecimentos da paixão mariana de João 19, 25-27.

A inclusão por Bento XV de uma festa para "Maria Medianeira de Todas as Graças" tornou a doutrina popular. Quando começou o Concílio Vaticano Segundo (1962), havia uma pressão entre os bispos para declarar formalmente a Santíssima Virgem Maria como "Medianeira de Todas as Graças". Esta tentativa acabou por ser reformulada e ela acabou por ser declarada como "Mãe da Igreja", um título mais suave, mas também bonito. Foi preferido "Mãe da Igreja" visto que definia a verdade de uma forma mais eclesial.

Podem encontrar esta definição de "Mãe da Igreja" no Capítulo VIII da Lumen Gentium. Ainda assim, a Lumen Gentium 8 acaba por referir-se a Maria Imaculada como "advogada, auxiliadora, socorro, medianeira". Notavelmente, o qualificador "de Todas as Graças" não foi incluído no texto final da Lumen Gentium, apesar de ter sido proposto.

Será que o Papa Bento XV foi longe demais?
Portanto, é matéria de fé que a nossa Santíssima Mãe é uma "Medianeira"... mas será ela a "Medianeira de Todas as Graças"? A maior parte dos Católicos não têm problema com o título "Medianeira", no entanto eu reparo que alguns Católicos vacilam quando ouvem "Medianeira de Todas as Graças." O Papa Bento XV foi longe demais ao adicionar "de Todas as Graças"?

O título completo a incluir "todas as graças" é controverso. Alguns protestam que Maria não poderia nunca ser a medianeira de todas as graças no Antigo Testamento, visto que ainda não existia. Mais ainda, podia ela ser a medianeira de todas as graças enquanto ainda estava na terra? Será que ela só ficou medianeira de todas as graças depois do Pentecostes ou, talvez, apenas depois da sua gloriosa Assunção? E ainda assim, será que ela é medianeira tanto das graças actuais como da graça sacramental? Isto é, as graças do baptismo e da Sagrada Eucaristia passam pelas mãos dela?

Duas questões difíceis relacionadas com "de todas as graças"
1) Quando é que Maria se tornou a medianeira de todas as graças. Desde sempre? Na Imaculada Conceição? Na Crucifixão? No Pentecostes? Na Assunção?

2) Quando dizemos "todas as graças" queremos dizer "cada graça" ou "todos os tipos de graça" ou "todos os tipos de graça actual"?

Eu sou pela posição extrema. Insisto que ela é a medianeira de cada graça que alguma vez foi dada à Humanidade, de Adão até ao último instante de tempo. É verdade que ela ainda não existia, no entanto ela é a medianeira de todas essas graças.

O Novo Adão como Mediador. A Nova Eva como Medianeira.
Como é que se pode dizer tal coisa? O argumento depende da antiga reputação de Nossa Senhora como a Nova Eva e da reputação de Cristo como Novo Adão. Cada graça é absolutamente mediada através de Cristo, visto que ele é totalmente Deus e totalmente homem. Ele é necessariamente e absolutamente o mediador da humanidade. No entanto, Ele medeia esta graça para a humanidade por virtude da Sua Encarnação e da Sua morte e através do Espírito Santo.

Já Maria, como Nova Eva, foi o instrumento da Encarnação e tinha o papel primário na Crucifixão e na descida do Espírito Santo no Pentecostes. Descobrimos assim que a Escritura a liga com estes três momentos da mediação absoluta de Cristo.

Sabemos também que todas as graças do Antigo Testamento foram mediadas em antecipação da Encarnação e Morte de Cristo. Visto que a carne de Maria e a sua cooperação são necessárias para a Encarnação e Morte de Cristo, estas graças também são mediadas com o seu papel em mente. É por isso que o Papa Pio IX diz que o decreto da predestinação de Cristo é um só com o de Maria.

Ou seja, as graças do Antigo Testamento foram mediadas à luz dela, ainda que não directamente concedidas por ela. Aqui distinguimos o termo "mediar" do termo "conceder". Maria Imaculada tem sido sempre a Medianeira de Todas as Graças, mas tornou-se Dispenseira de Todas as Graças na sua gloriosa Assunção.

Ainda se podia tomar uma opção mais extrema e dizer que Maria se tornou a Dispenseira de cada graça a partir do momento da sua Imaculada Concepção. Isto iria precisar que desde o seu primeiro momento ela teve uma enorme infusão de conhecimento mesmo ainda na barriga de Santa Ana. Eu não tenho bem a certeza de que isto tenha acontecido, no entanto não culparia ninguém que pensasse assim. Parece que Santo Afonso Maria de Ligório possa ter tido esta posição, no entanto não consigo perceber bem (ficaria agradecido se algum afonsista me ajudasse neste ponto.)

E no que toca à Escritura?
Sabemos que a santificação e confirmação na graça de São João Baptista enquanto ainda estava na barriga de sua mãe aconteceu através da mediação da voz de Maria. “Porque assim que chegou a voz da tua saudação aos meus ouvidos, logo o Menino deu saltos de alegria no meu ventre.” (Lucas 1, 44)

Tanto as liturgias gregas como as latinas aplicam Eclesiástico 24 como a profecia da Santíssima Virgem Maria. A passagem diz "Eu sou a mãe do amor formoso, do temor, da ciência e da santa esperança. Em mim está toda a graça do caminho e da verdade, em mim está toda a esperança de vida e de virtude.” (Sir 24, 24–25) 

Maria é a "Mãe do Amor Formoso" e nela "está toda a graça." Portanto, aqui está uma profecia do Antigo Testamento sobre o título de Maria como Medianeira de Todas as Graças. Como se disse acima, a presença de Nossa Senhora na Concepção, Natividade, Vida, Morte e Ascensão do Senhor e depois Pentecostes revelam o seu cargo de mediação abaixo de Cristo.

Maria medeia a Graça Sacramental?
No que toca à graça sacramental, Santo Cirilo de Alexandria, quando falava aos Padres do Concílio de Éfeso (ano 431) disse que a graça do baptismo, confirmação e sagradas ordens chegam à Igreja através de Maria.

Pensemos nos sete sacramentos e veremos que isto faz sentido:
- O Baptismo remove a mancha de Eva (Maria é a Nova Eva), dá-nos o Espírito Santo (o Esposo de Maria) e une-nos à morte e ressureição de Cristo (Maria medeia sob a cruz);
- A Confirmação é o sacramento que confere a graça do Pentecostes a cada um de nós. Maria é a Esposa do Espírito e estava presente no Pentecostes;
- A Sagrada Eucaristia é o Corpo e Sangue de Cristo. Esta carne e sangue do Logos Eterno vieram do ventre da Santíssima Virgem Maria. Não há Mãe humana? Não há Corpo e Sangue;
- A Confissão é a aplicação do mérito e sangue de Cristo ao pecador. A presença mediadora de Maria sob a Cruz confirma o seu papel neste sacramento;
- A Extrema Unção é o sacramento que prepara o fiel para a morte. Cristo deu a Maria domínio sobre a "hora da morte" e sobre o Purgatório devido ao seu desejo de morrer uma morte humana, mesmo tendo permanecido sem pecado. Ela queria morrer para se identificar mais perfeitamente com Cristo. Isto também é previsto por Ben Sirá: “Penetrarei em todas as partes da terra, visitarei todos aqueles que dormem, iluminarei todos os que confiam no Senhor. ” (Sir 24, 45)

As Sagradas Ordens são o mistério do sacerdócio e Cristo tornou-se o Sumo Sacerdote da Humanidade por virtude da Sua Encarnação. No entanto, Maria era absolutamente necessária para a Sua chegada à natureza humana. Não havia Mãe? Não havia Encarnação? Mais uma vez, a presença de Maria na Cruz confirma o seu papel aqui, visto que Cristo exerceu manifestamente o Seu sacerdócio na Cruz.

O Santo Matrimónio foi elevado à dignidade de sacramento nas Bodas de Caná. O milagre de Cristo e a bênção nas Bodas de Caná ocorrem por mediação directa de Maria. Assim, também ela é medianeira da graça sacramental do Santo Matrimónio.
Portanto, é fácil ver que a Escritura liga Maria a todos os sete sacramentos. Enquanto que alguns se opõem à posição de que Maria é a medianeira da graça sacramental, eu vejo todas as razões para afirmar que ela é a medianeira da graça sacramental.

Em suma, confirmámos o seguinte:

A mediação de Maria não entra em conflito com a mediação de Cristo, mas é a forma mais alta de sub-mediação abaixo de Cristo. Ela é o aqueduto que traz a graça e méritos infinitos de Cristo.

O Papa Bento XV instituiu a festa litúrgica de Maria, Medianeira de Todas as Graças.
A mediação universal de Maria está vinculada pelo seu nome de Nova Eva. Cristo é o Novo Adão e o seu trabalho redentor é universal. Consequentemente, a sub-mediação de Maria é universal.

Todas as graças, mesmo aquelas do Antigo Testamento são mediadas através do ministério do Novo Adão e da Nova Eva. Apesar de Maria ainda não existir, as graças antes do Novo Testamento foram dadas em expectativa de um Novo Adão e de uma nova Eva - Jesus e Maria.

Mesmo as graças sacramentais são mediadas e aplicadas por Maria Imaculada. A Sagrada Escritura mostra que as graças e dons associados a cada sacramento (ex: o derrame do Espírito Santo na Confirmação) foram conquistados através de Maria (ex: quando Santa Isabel e São João Baptista se encheram com o Espírito Santo).

Taylor Marshall


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sábado, 1 de novembro de 2025

Hoje é dia dos que viveram assim:

Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.

Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus.

Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa. 


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