segunda-feira, 8 de julho de 2024

Mistério: As câmaras de segurança estavam desligadas quando o Cardeal Pell morreu

A morte do Cardeal George Pell está "envolta em mistério", disse o seu antigo colega Libero Milone, o primeiro auditor geral do Vaticano, ao TheAustralian.com.au. No caixão de Pell, prometeu chegar à verdade. Milone, um empresário italiano nascido na Holanda e antigo sócio da multinacional de contabilidade Deloitte, é o último sobrevivente do trio nomeado em 2015 para reformar o sistema financeiro do Vaticano, do qual o Cardeal Pell era o chefe. O terceiro colega, Ferruccio Panicco, morreu de cancro em junho de 2023, com 63 anos.

O Cardeal Pell morreu em Roma, em Janeiro de 2023, com 81 anos, de paragem cardíaca após uma operação à anca, embora tenha acordado após a operação e aparentasse estar bem.

O site TheAustralian.com.au escreve que pelo menos dois dos confidentes mais próximos do Cardeal Pell o tinham aconselhado a não se submeter à operação em Roma por razões de segurança, mas a regressar à Austrália para a efetuar.

No entanto, o Cardeal optou por fazer a operação no Hospital Salvator Mundi, um hospital privado em Roma, originalmente fundado por freiras, mas que actualmente faz parte do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh (UPMC).

Segundo o site TheAustralian.com.au, as câmaras de vigilância do hospital não estavam a funcionar na altura da morte do Cardeal Pell. O jornal afirma também que não havia nenhum médico de serviço para assistir o Cardeal Pell na noite da sua morte.

E continua: "Há meses que circulam rumores na Santa Sé de que o corpo de Pell foi deixado em desordem após a autópsia e não foi vestido adequadamente, levantando mais preocupações sobre as suas últimas horas".

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Papa Pio XII a descer as escadas do Palácio Apostólico na Sede Gestatória




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domingo, 7 de julho de 2024

17º aniversário do Motu Proprio Summorum Pontificum

Há 17 anos, no dia 7 de Julho de 2007, o Papa Bento XVI publicava um dos documentos que mais marcaram o seu Pontificado: Motu Proprio Summorum Pontificum.

Em 2007, Jean Madiran, escritor católico francês, dizia: "Durante trinta e sete anos, uma geração inteira de católicos militantes, religiosos ou leigos pertencentes à Igreja Militante (uma geração dos 7 aos 97 anos de idade), sofreu, sem ceder, desafiando abertamente o interdito arbitrário à Missa Tradicional. Lembramo-nos dos nossos mortos: Cardeal Ottaviani, Padre Calmel, Padre Raymond Dulac, Monsenhor Renato Pozzi, Monsenhor Lefebvre, Padre Guérard. E, dentre os leigos: Cristina Campo, Luce Quenette, Loius Salleron, Eric de Savanthem. A boa-vontade pontifical é para eles como que uma leve brisa, que docemente lhes traz paz aos seus túmulos. Onde quer que estejam agora, não mais precisam dela. Mas é a sua memória entre nós que é apaziguada e elevada."

Escrevia, em 1997, o então Cardeal Ratzinger: "Eu sou da opinião, para dizer a verdade, que o rito antigo devia ser providenciado muito mais generosamente a todos aqueles que o desejam. É impossível ver o que poderia ser perigoso ou inaceitável. Uma comunidade está a colocar o seu próprio ser em questão quando subitamente declara que aquilo que até um momento foi o seu maior e mais santo bem é estritamente proibido e quando torna o desejo disso parecer francamente indecente."

10 anos mais tarde, emitiu, enquanto Papa Bento XVI, o Motu Proprio Summorum Pontificum. Este documento contém doze artigos da lei universal da Igreja que reconhecem factos e direitos, estabelecem direitos que são novos ou não estavam claros sob a lei anterior, e criam novas obrigações. Isto é extremamente importante: os doze artigos são a lei. Não a introdução aos artigos, nem a carta anexada do Papa aos Bispos. E muito menos podem estes ser invocados para contrariar a lei.

Felizmente os artigos do Motu Proprio são muito claros. Mas, em caso de dúvida a autoridade interpretativa reside na Pontifícia Comissão Ecclesia Dei. O Supremo Legislador desejou criar uma estrutura liturgica para padres e fieis - particularmente para os padres. Trata-se duma "Constituição", não como outro documento teológico, mas no sentido legal de que é uma lei fundacional, uma lei acima das outras leis: isto é muito claro, por exemplo, nos extremamente importantes artigos 2, 4 e 9§3, que são o encorpar da liberalidade.

Como tal, queridos Padres de todo o Mundo, estimem e façam bom e completo uso deste documento: não é propriedade de minorias separadas; não é do domínio de clérigos nostálgicos; pertence a todos vós, é o vosso livre-transito para a liberdade liturgica. 

Nos Estados-Unidos, o número de Missas tradicionais aumentou de 20 em 1988, para 220 em 2006 e para mais de 500 em 2021. Hoje são muitas mais. Isto apesar do vigilância desobediente de eclesiásticos que, nas palavras de Peter Kwasniewski (especialista em liturgia), "deram a si mesmos o trabalho de policiar e proteger a Igreja mainstream dos 'perigos', dos 'erros' e das 'más atitudes' dos católicos amantes da tradição."

Em França prevê-se que em 2038 o número de padres a celebrar exclusivamente a Missa antiga suplante o número de padres diocesanos que celebram regularmente a Missa nova.

O blog Senza agradece ao Papa Bento XVI pelo Summorum Pontificum, que nos libertou das trevas da proibição arbitrária daquilo que para tantas gerações de católicos foi tido como sagrado. Da Missa que tantos santos fez. Do mais santo acto de religião.

Caminhemos para a paz litúrgica!
Deo gratias!

PF


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Começa hoje a Novena a Nossa Senhora do Carmo

ORAÇÃO PARA TODOS OS DIAS

† Pelo sinal da Santa Cruz, † livrai-nos, Deus, Nosso Senhor, † dos nossos inimigos.

† Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Ó Deus eterno, Pai, Filho e Espírito Santo! Prostrado em vossa adorável presença, imploro misericórdia pelos méritos de Vossa Filha predilecta, Mãe soberana e Esposa Santíssima, a excelsa Virgem Maria do Monte Carmelo, maternal protectora de todos os necessitados na vida, na morte e no purgatório. Ouvi-me, Senhor, nesta novena que a Ela consagro, e concedei-me o viver e morrer em vossa graça, para vos contemplar e bendizer eternamente na sua gloriosa companhia. Amém.

Ó Maria, Rainha e Formosura do Carmelo, Mãe admirável e bondosa; olhai com carinho para nós vossos filhos, aqui reunidos na vossa presença. Infundi em nossas almas uma fé sempre mais profunda e um amor mais perfeito a Verdade e ao Bem. Revesti o nosso coração com o Santo Escapulário; que ele seja um sinal de salvação e garantia de vossa bênção e protecção. Dai-nos a graça de alcançar a salvação eterna. Amém.

1º dia - 7 de Julho

Maria, Rainha e Formosura do Carmelo, muito antes do vosso nascimento, o grande profeta Elias, previu na misteriosa nuvem, que subiu do mar e cobriu o Monte Carmelo, a vossa grandeza de Mãe do Senhor.

Mãe Santa do Carmo, com toda a confiança nos aproximamos de vós. Olhai-nos com ternura e derramai a graça divina em nosso corações. Enriquecei-nos com os dons do Espírito Santo e as virtudes cristãs, Alcançai-nos a graça de nunca vivermos afastados de Deus. 

E agora, Mãe de Jesus, alcançai-nos a graça especial que nesta Novena vos pedimos: (pedir a graça). Rezar 3 Ave-Marias e Glória ao Pai...

Seja por todos bendita a Mãe de Deus, Santa Virgem do Carmelo. Sejamos por ela abençoados na Terra e no Céu. Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós.

2º dia - 8 de Julho

Rainha excelsa e Mãe terna do Carmelo! Os sucessores do profeta Elias, moradores perpétuos do Monte Carmelo, conservaram ao longo da história, o amor à vossa maternidade divina, tomando como exemplo, as virtudes que brilharam em vossa vida.

Fazei, Mãe amável e querida, que reine também nas nossas famílias, uma arraigada devoção para convosco. Seja esta devoção fonte perene de amor e união, de felicidade, alegria e paz. 

E agora, Mãe de Jesus, alcançai-nos a graça especial que nesta Novena vos pedimos: (pedir a graça). Rezar 3 Ave-Marias e Glória ao Pai...

Seja por todos bendita a Mãe de Deus, Santa Virgem do Carmelo. Sejamos por ela abençoados na Terra e no Céu. Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós.

3º dia - 9 de Julho

Virgem do Carmo, Maria Santíssima! Os religiosos carmelitas fizeram que fosses honrada e venerada em todas as partes do mundo. Vós retribuístes esta prova de amor, outorgando-lhes o singularíssimo dom do Santo Escapulário. Quisestes Mãe querida, que ele fosse vínculo de amizade, sinal da vossa perpétua protecção, para todos que devotamente o trazem consigo.

Virgem do Carmo, Mãe admirável! Aqui estamos para agradecer este favor tão insigne. Queremos trazer sobre o coração esta aliança de paz. Fazei com que ele nos preserve dos perigos, nos afaste dos males, e seja fonte permanente de graça e protecção. 

E agora, Mãe de Jesus, alcançai-nos a graça especial que nesta Novena vos pedimos: (pedir a graça). Rezar 3 Ave-Marias e Glória ao Pai...

Seja por todos bendita a Mãe de Deus, Santa Virgem do Carmelo. Sejamos por ela abençoados na Terra e no Céu. Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós.

4º dia - 10 de Julho

Mãe soberana e excelsa Virgem Maria! Ao entregar o vosso Escapulário a São Simão Stock, pedistes que o levássemos como veste, e o trouxéssemos sempre conosco como sinal de nossa devoção. O Escapulário nos compromete a seguir os vossos passos e acreditar no vosso poder junto de Deus.

Virgem Mãe de Deus e nossa! Obrigado por me teres envolvido com o vosso manto e me acolheres como vosso filho. Conduzi-me a viver, tanto na alegria, como no sofrimento, com o olhar sempre voltado para Deus. 

E agora, Mãe de Jesus, alcançai-nos a graça especial que nesta Novena vos pedimos: (pedir a graça). Rezar 3 Ave-Marias e Glória ao Pai...

Seja por todos bendita a Mãe de Deus, Santa Virgem do Carmelo. Sejamos por ela abençoados na Terra e no Céu. Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós.

5º dia - 11 de Julho

Virgem Maria, Mãe querida do Carmelo! No alto da Cruz, Jesus vos confiou o título de Mãe. Mandou que cuidasses de nós, com desvelo, que nos abrisses os olhos da fé, que fizesses bater nosso coração de amor ao próximo, e nos ensinasses a pronunciar o doce nome de Deus Pai.

Mãe amável e bondosa! Na caminhada dolorosa e difícil desta vida é gratificante poder chamar-vos de Mãe. Como é bom ter a certeza que nos acompanhais com ternura e amor. Muitas vezes a minha fraqueza me leva a ser a ovelha desgarrada. Mas o pensamento de que sois minha Mãe dá-me forças para voltar ao caminho do bem. 

E agora, Mãe de Jesus, alcançai-nos a graça especial que nesta Novena vos pedimos: (pedir a graça). Rezar 3 Ave-Marias e Glória ao Pai...

Seja por todos bendita a Mãe de Deus, Santa Virgem do Carmelo. Sejamos por ela abençoados na Terra e no Céu. Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós.

6º dia - 12 de Julho

Mãe excelsa e Rainha do Carmelo! Durante a vossa vida, sempre tivesses o coração aberto para Deus. Dissestes: “Faça-se em mim conforme a Vossa Vontade". O vosso coração também estava aberto ao próximo; ajudastes a prima Isabel, colaborastes nas bodas de Caná, e durante toda a vida servistes o vosso Filho Jesus.

Senhora e Mãe querida do Carmo! Devo aprender com a vossa vida, esta grandiosa lição de amor a Deus e ao próximo. Como humilde serva do Senhor, tivestes o coração aberto para ajudar a quem precisasse. Conduzi-me, ó Mãe, a não fugir dos necessitados, dos mais pequeninos, dos que me procuram e me pedem um gesto fraterno.

E agora, Mãe de Jesus, alcançai-nos a graça especial que nesta Novena vos pedimos: (pedir a graça). Rezar 3 Ave-Marias e Glória ao Pai...

Seja por todos bendita a Mãe de Deus, Santa Virgem do Carmelo. Sejamos por ela abençoados na Terra e no Céu. Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós.

7º dia - 13 de Julho

Virgem Maria, Mãe de Jesus! A lembrança do profeta Elias, que vivia na presença de Deus, assim como a atitude de Maria (irmã de Marta) em estar à escuta da Palavra de Deus, transmitiu aos Carmelitas e a todos os que usam o Santo Escapulário, um profundo amor à oração. Jesus procurou lugares solitários, mandou que fôssemos inoportunos na súplica, para ensinar-nos, quanto a nossa atitude de oração é do agrado de DEUS.

Virgem Mãe de Deus! Fazei com que a vosso exemplo, eu me torne pessoa de oração, meditando sempre e constantemente todas as palavras vindas da boca de Deus. Mãe amável, ajudai-me a vencer as dificuldades da vida, orando. Cheio de vigor divino, saiba dominar as preocupações materiais, e abrir o meu espírito a um relacionamento profundo com Deus.

E agora, Mãe de Jesus, alcançai-nos a graça especial que nesta Novena vos pedimos: (pedir a graça). Rezar 3 Ave-Marias e Glória ao Pai...

Seja por todos bendita a Mãe de Deus, Santa Virgem do Carmelo. Sejamos por ela abençoados na Terra e no Céu. Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós.

8º dia - 14 de Julho

Mãe soberana e grandiosa Rainha do Carmelo! O vosso Filhos Jesus fez-nos ver a grandeza de Deus, na simplicidade de um lírio do campo, na inocência de uma criança, ou na oferta de um copo de água. Acrescentou ainda, que o Seu Reino, pertencia aos pobres, aos fracos, aos que são simples como crianças.

Mãe e Senhora do Carmo! Na vossa humildade fostes escolhida para Mãe de Deus. Vivestes uma vida de silêncio e trabalho. No momento da morte de Jesus, em silêncio, unistes a vossa dor aos sofrimentos do vosso Filho. Ensinai-me a valorizar os acontecimentos do meu dia a dia como vindos das mãos de Deus para o meu bem.

E agora, Mãe de Jesus, alcançai-nos a graça especial que nesta Novena vos pedimos: (pedir a graça). Rezar 3 Ave-Marias e Glória ao Pai...

Seja por todos bendita a Mãe de Deus, Santa Virgem do Carmelo. Sejamos por ela abençoados na Terra e no Céu. Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós.

9º dia - 15 de Julho

Virgem Maria, Santa Mãe de Deus! O vosso Filho Jesus mandou que fôssemos santos como o Pai do Céu é Santo! Por isso, devemos colocar-nos no caminho da santidade, pois a santidade não é para um grupo de heróis, mas para todos. Quando não orientamos a nossa vida para Deus, deixamos de ser santos.

Senhora e Mãe do Carmo! Aqui reunidos, diante da vossa presença, vos chamamos mais de uma vez de Santíssima Virgem Maria. Recebestes este título, porque deixastes que Deus vivesse em vós, se manifestasse em vós, e vos envolvesse no seu Ministério. Conduzi-nos pelo caminho do bem e da santidade. 

E agora, Mãe de Jesus, alcançai-nos a graça especial que nesta Novena vos pedimos: (pedir a graça). Rezar 3 Ave-Marias e Glória ao Pai...

Seja por todos bendita a Mãe de Deus, Santa Virgem do Carmelo. Sejamos por ela abençoados na Terra e no Céu. Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós.


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Proibida a Missa Tradicional em Covadonga


O Vaticano proibiu a celebração da última Missa da peregrinação de rito romano de Nossa Senhora da Cristandade (27-29 de Julho) ao Santuário de Covadonga, nas Astúrias, em Espanha.

Esta peregrinação anual começou em 2021. É o reflexo da bem sucedida peregrinação francesa de Pentecostes a Chartres, em França.

No entanto, este ano, o Arcebispo de Oviedo, Monsenhor Jesús Sanz Montes, 69 anos, informou os organizadores que a Missa em Covadonga foi "proibida". Está a seguir as instruções do rígido e altamente ideológico Dicastério contra a Liturgia, dirigido por Arthur Roche.

Em consequência, os organizadores alteraram os seus planos do seguinte modo. A Missa será celebrada no acampamento de manhã, antes da caminhada final. À chegada a Covadonga, o Te Deum será cantado diante do Santíssimo Sacramento, seguido de uma consagração à Santíssima Virgem.

Os organizadores convidam todos a "perseverar no amor e na devoção que professamos pelo Santo Sacrifício do Altar no seio da Santa Madre Igreja".

Inscrições na Peregrinação a Covadonga: https://nscristiandad.es/pt/inscripcion

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sábado, 6 de julho de 2024

Carta do Assassino de Santa Maria Goretti

Maria Goretti tinha 12 anos quando Alessandro Serenelli, de 20, a tentou seduzir. Como se recusasse, dizendo que era pecado, a jovem foi apunhalada 14 vezes por Alessandro, ficando às portas da morte. Antes de morrer disse que perdoava ao seu assassino e que ia interceder por ele no Céu. Esta carta de Alessandro, escrita 60 anos depois, prova isso mesmo:  

Tenho agora quase 80 anos. Estou perto do fim dos meus dias. Olhando para o meu passado, reconheço que na minha juventude eu segui um mau caminho, um caminho que levou à minha ruína. Através das revistas, dos espectáculos imorais e dos maus exemplos na imprensa, eu vi a maioria dos jovens da minha idade seguir o caminho do mal sem pensar duas vezes. Despreocupado, eu fiz a mesma coisa.

Havia fiéis e cristãos verdadeiramente praticantes à minha volta, mas eu não lhes dava importância. Eu estava cego por um impulso bruto que me empurrava para uma forma errada de vida.

Com a idade de 20 anos, eu cometi um crime passional, cuja memória ainda hoje me horroriza. Maria Goretti, hoje uma santa, foi o bom anjo que Deus colocou no meu caminho para me salvar. As palavras dela, tanto de repreensão como de perdão, ainda hoje estão impressas no meu coração. Ela rezou por mim, intercedeu pelo seu assassino. Quase 30 anos de prisão se seguiram.

Se eu não fosse menor de idade (tinha menos de 21 anos), pela lei italiana, eu teria sido condenado a prisão perpétua. No entanto, eu aceitei a pena como algo que eu merecia.

Resignado, eu expiei pelo meu pecado. A pequena Maria foi verdadeiramente a minha luz, a minha protecção. Com a ajuda dela, eu cumpri bem esses 27 anos na prisão. Quando a sociedade me aceitou de volta entre os seus membros, eu procurei viver de forma honesta. Com caridade angélica, os filhos de São Francisco, os frades capuchinhos menores, receberam-me entre eles, não como servo, mas como irmão. Tenho vivido com eles há 24 anos. 

Agora olho serenamente para o dia em que serei admitido à visão de Deus, para abraçar os meus entes queridos mais uma vez, e para ficar próximo do meu anjo da guarda, Maria Goretti, e a sua querida mãe, Assunta.

Que todos os que vierem a ler esta carta desejem seguir o santo ensinamento de fazer o bem e evitar o mal. Que todos possam acreditar, com a fé dos pequeninos, que a religião e os seus preceitos, não são algo que se possa prescindir. Pelo contrário, é o verdadeiro conforto e a única via segura em todas as circunstâncias da vida, mesmo nas mais dolorosas.

Paz e bem.

Alessandro Serenelli - Macerata, Itália, 5 de Maio de 1961


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sexta-feira, 5 de julho de 2024

A Epiclese na Divina Liturgia (Rito Bizantino)



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Mons. Carlo Maria Viganò foi excomungado pela Santa Sé

A Sala de Imprensa da Santa Sé divulgou hoje um comunicado da Congregação para a Doutrina da Fé que anuncia a excomunhão do ex-Núncio nos Estados Unidos da América, Mons. Viganò:

«A 4 de Julho de 2024, o Congresso do Dicastério para a Doutrina da Fé reuniu-se para concluir o Processo Penal extrajudicial ex cân. 1720 CIC contra S.E.R. Monsenhor Carlo Maria VIGANÒ, Arcebispo Titular de Ulpiana, acusado do crime reservado de cisma (cân. 751 e 1364 CIC; art. 2 SST).

São conhecidas as suas declarações públicas, das quais se depreende a sua recusa em reconhecer e submeter-se ao Sumo Pontífice, à comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos e à legitimidade e autoridade magisterial do Concílio Ecuménico Vaticano II.

No final do processo penal, S.E.R. D. Carlo Maria Viganò foi considerado culpado do crime reservado de cisma.

O Dicastério declarou a excomunhão latae sententiae ex can. 1364 § 1 CIC.

A remoção da censura nestes casos é reservada à Sé Apostólica.

Esta decisão foi comunicada a S.E.R. Monsenhor Viganò a 5 de Julho de 2024.»

Rezemos por Mons. Viganò e pela Igreja.


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quinta-feira, 4 de julho de 2024

A lição do Beato Pier Giorgio Frassati

Nós - que por graça de Deus somos católicos - não devemos gastar os anos mais belos da nossa vida como desgraçadamente fazem tantos jovens infelizes que se preocupam com gozar os bens terrenos e não produzem nada de bom, mas que apenas fazem frutificar a imoralidade da nossa sociedade moderna. 

Devemos treinar-nos, a fim de estarmos prontos para travar as lutas que, seguramente, teremos de combater pela realização do nosso programa e para, assim darmos à nossa Pátria, num futuro não muito longínquo, dias mais alegres e uma sociedade moralmente sã. 

Mas para tudo isto, é preciso: a oração contínua para obter de Deus a graça sem a qual as nossas forças são vãs; organização e disciplina para estarmos prontos para a acção no momento oportuno e, finalmente, o sacrifício das nossas paixões e de nós mesmos, porque sem isso não se pode atingir o objectivo.

in Pier Giorgio Frassati - O amor nunca diz:"Já chega"


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História sucinta da vida, morte e exclesas virtudes da Rainha Santa Isabel

Muito se tem escrito acerca da vida da excelsa e virtuosíssima D. Isabel d'Aragão, Esposa d'el-rei D. Dinis de Portugal; mas impunha-se, há muito, a publicação d’um folheto como este, que, sendo conciso na sua descrição, não deixasse de relatar os factos que mais distinguiram Àquela que a cidade de Coimbra escolheu para sua Augusta Padroeira e Protetora.

O que o autor deste folheto teve em vista foi facultar aos fiéis, com grande economia de preço, um livrinho de leitura fácil e corrente, ao alcance de todos, onde a história sagrada da Rainha Santa possa deixar bem arraigada no espírito dos crentes a obra sublime, verdadeiramente maravilhosa, que lhe concedeu lugar na corte celestial.

As notas que colhemos foram extraídas, principalmente, do monumental trabalho de investigação histórica do Exº. Sr. Dr. António Garcia Ribeiro de Vasconcelos, na sua tão apreciada obra “D. Isabel d' Aragão”.

A fama de santidade da Rainha Santa Isabel estende-se por todo Portugal e por muitas terras de Espanha. Em Coimbra, porém, é tão grande que em parte alguma do nosso País se realizam festas tão pomposas em honra d’um santo, como nesta cidade, onde concorrem para mais de 50.000 pessoas por essa ocasião.

É nos momentos de luta pela adversidade da vida que os conimbricenses, principalmente, recorrem à proteção da Rainha Santa, na sua fervorosa suplica, e se nem sempre logram alcançar a satisfação das suas preces, é já poderoso lenitivo para a sua dor a lembrança de que Ela nunca desamparou os infelizes com a sua divina graça.

Isabel d'Aragão, tendo sido um grande exemplo de virtudes, deu também uma prova bem frisante do seu amor a Coimbra, determinando em seu testamento que o seu corpo sagrado repousasse no Mosteiro de Santa Clara desta cidade, onde Ela esteve enclausurada, e donde foi trasladado o seu corpo para o novo mosteiro do mesmo nome.

É, pois, pouco quanto façam os conimbricenses em honra da memória sagrada da Sua excelsa Padroeira.

CAPITULO I - Nascimento da Rainha Santa, da corte de Aragão ao Trono de Portugal

A Rainha Santa Isabel, que Coimbra se ufana de ter como desvelada Protetora e valiosa Padroeira, nasceu na cidade de Saragoça (Espanha), no ano de 1271.

Filha do Príncipe real D. Pedro de Aragão e de sua esposa D. Constança, o seu nascimento foi desde logo iluminado pela graça divina, pois que seu avô, El-rei D. Jaime, que até aí vivia em grande discórdia com D. Pedro de Aragão, imediatamente se congraçou com este, passando ambos a viver na mais doce harmonia.

Assim demonstrou Deus aos homens que esta menina estava reservada a ser na terra a medianeira da paz, o Anjo predestinado a estabelecer a harmonia e a concórdia entre os desavindos; facto que mais tarde, quando Rainha de Portugal, se verificou nas diversas desavenças entre seu esposo, El-rei D. Dinis, e seu filho, D. Afonso IV.

A Rainha Santa Isabel foi, como já dissemos, aureolada desde o seu nascimento pela graça do Senhor. As suas preciosas virtudes bem cedo se revelaram, crescendo nela com a idade a fama que tanto a impôs à consideração de todas as cortes da Europa, facto que despertou em bastantes príncipes o desejo de possuírem como esposa tão excelsa senhora (6).

Foi à corte de Portugal, felizmente, que coube a suprema ventura de ser a preferida entre todas as outras, merecendo El-rei D. Dinis a glória de ter como consorte um tesouro de tantas virtudes e de tão preciosos encantos.

O casamento de D. Dinis com D. Isabel celebrou-se por procuração na antiga cidade de Barcelona, tendo lugar este acto no dia 11 de fevereiro de 1282, e contando a futura Rainha de Portugal apenas 11 anos de idade. Este auspicioso enlace constituiu um motivo de grande regozijo para todos os portugueses, antevendo estes os enormes benefícios deste casamento, o qual foi muito festejado e aclamado em todo o País, com demonstrações de grande alegria e verdadeira satisfação.

A saída de D. Isabel para Portugal causou a seus pais grandes tristezas, custando-lhes imenso essa separação pelas profundas saudades que D. Isabel deixava em todos os corações, que muito a estremeciam.

De Espanha até Coimbra foi a excelsa Rainha delirantemente aclamada por todo o povo que acorria à sua passagem, salientando-se mais essas carinhosas manifestações na antiga vila de Trancoso, onde, no dia 24 de junho de 1282, no templo de S. Bartolomeu, se celebraram com toda a pompa as bênçãos nupciais.

Em Coimbra, onde a esse tempo residia a Corte, juntamente com a principal nobreza do Reino, as manifestações de contentamento e alegria pela chegada dos régios nubentes atingiram o mais delirante entusiasmo, conquistando logo a Rainha D. Isabel a simpatia e o amor d’um povo que, mais tarde, havia de herdar o seu mais precioso tesouro — o sagrado corpo que todos (7) hoje veneramos — e que esta cidade conserva com a mais desvelada e respeitosa devoção.

As manifestações de regozijo com que a cidade recebeu os régios consortes foram, pois, verdadeiramente grandiosas, vestindo a cidade as suas melhores galas para bem lhes significar o contentamento de que se achava possuída por motivo daquele enlace, cujos efeitos tanto se evidenciaram na vida da Nação portuguesa, e de que Coimbra coparticipou em larga escala pelos benéficos actos de caridade que a Santa Rainha espalhou por toda a parte.

Foi nesta cidade, principalmente, que D. Isabel de Aragão manifestou mais claramente a pureza da sua alma. Os actos de caridade que praticou, os socorros por ela prestados à indigência, aos órfãos, às viúvas e às donzelas abandonadas, foram os primeiros labores que lhe teceram a sua coroa de glória; a fundação de asilos, de albergues e de hospitais, que a sua magnificência sustentou e onde se recolhia uma legião de infelizes, originou, sem dúvida, a fama de santidade que bem cedo a distinguiu e que, mais tarde, a 25 de Maio de 1625, dia da Santíssima Trindade, a Igreja confirmou, englobando-a no número dos eleitos do Senhor.

CAPITULO II - Actos de Caridade

Se durante a vida de El-rei D. Dinis a ação da Rainha Santa foi um constante manancial de actos virtuosos, a partir do momento da sua viuvez, a sua ação tornou-se verdadeiramente exemplar (8).

O número de factos que desde então assinalam tão gloriosa existência na terra, mais e mais fazem arraigar na alma do povo a convicção dos desígnios de Deus, por Ela tão santamente interpretados.

Sem todavia esquecer os deveres de Rainha, que lhe absorviam uma grande parte dos seus cuidados, e não poucas vezes foram motivo de profundos desgostos, D. Isabel de Aragão cinge livremente o hábito de freira clarissa, e, volvendo os olhos piedosos para um mais largo horizonte, consagra-se completamente a obras de caridade, fundando e auxiliando hospícios e asilos, nos quais se albergam, sob a sua proteção, muitas infelizes que se regeneraram pelos seus conselhos e alcançaram na terra a felicidade que só sabem gozar as almas puras e simples.

Querendo encaminhar-se pela estrada luminosa que da terra se eleva até Deus, um dos seus primeiros cuidados, ao ver-se cingida pela roupagem da viuvez, foi trocar os faustos das glórias terrenas pela humildade da clausura a que, como já dissemos, livremente se sujeitou.

Junto dos seus Paços reais corriam vagarosamente as obras para a fundação do Convento de Santa Clara, obras que prometiam eternizar-se por demandas entre os frades crúzios (a) e D. Maior Dias, fundadora daquele convento, e que certamente ficariam incompletas se não fosse o auxílio e proteção que a Rainha Santa dispensou para a sua rápida conclusão.

Uma vez concluído, cuidou logo a Rainha Santa em fundar junto deste convento um asilo para órfãos e para a pobreza envergonhada, chamando para junto de si (9) algumas amas de leite com o encargo de alimentarem as crianças desvalidas!

A maior parte do seu tempo tinha-o a Rainha Santa distribuído por forma a satisfazer os seus deveres de Rainha e cristã; o restante, empregava-o no ministério da caridade, visitando os asilados, a quem não só consolava com a sua palavra, mas muitas vezes servia de carinhosa enfermeira, curando as chagas que lhes corroíam o corpo.

Nesta e em muitas outras obras de verdadeira abnegação, despendia a Rainha Santa quase toda a sua fortuna. Com o auxílio de Deus, a quem firmemente procurava engrandecer com os merecimentos das suas preciosas virtudes, nunca a Rainha Santa lutou com dificuldades para se desempenhar da sua nobre missão. Os proventos de que dispunha parece que tinham o condão de se multiplicar, e, se algumas vezes houve em que o seu socorro tinha de fazer face a maiores calamidades, então eram as rosas que, adquirindo a forma de ouro reluzente, premiavam os seus actos de caridade e satisfaziam os encargos adquiridos para garantir o pão aos famintos!

Da sua vida, tão brilhantemente documentada na preciosa obra de S. Exª. o sr. Dr. Antônio Garcia Ribeiro de Vasconcelos, erudito professor da Universidade de Coimbra [1], constam muitos e importantes factos da vida gloriosa da Rainha Santa, traduzidos todos eles nos mais altos benefícios em favor dos desprotegidos (10).

CAPITULO III - Morte da Rainha Santa

Em Junho de 1336, teve a Rainha Santa conhecimento de que seu filho D. Afonso IV e seu neto D. Afonso XI, rei de Castela, se haviam indisposto por motivo de graves acontecimentos, tendo-se declarado a guerra entre aqueles dois poderosos monarcas.

Quando a Rainha Santa soube de tal resolução, imediatamente se resolveu a partir para Estremoz, lugar onde a esse tempo estava o seu filho acompanhado de toda a Corte.

Este propósito foi prudentemente combatido pelos médicos da Rainha Santa, os quais, temendo mais o excesso do calor e a fadiga dessa longa viagem do que a idade da virtuosa Senhora, se apressaram a demovê-la dessa resolução. Inúteis rogos e infrutíferas tentativas! A Rainha Santa, desprezando esses bons conselhos e animada somente em restabelecer a paz entre os reis desavindos — filho e neto —, parte apressadamente de Coimbra, caminhando sob um sol abrasador, e chega finalmente junto das fortalezas de Estremoz, abatida e fatigada, mas cheia de ânimo para cumprir a sua carinhosa missão.

Logo que a sua chegada é conhecida no acampamento de D. Afonso IV, imediatamente se suspendem as hostilidades e todos se abeiram do leito da Rainha Santa, para lhe prodigalizarem os cuidados que a sua melindrosa saúde exigia.

Baldados esforços porque o mal agravava-se de momento para momento. Uma pústula que rapidamente (11) lhe apareceu num braço tornou mais melindroso o seu estado, e, no dia 4 de julho, manhã cedo, a Rainha Santa declarou que queria receber os últimos Sacramentos. Na tarde desse mesmo dia, as forças principiaram a faltar-lhe, a Rainha Santa vê que é chegada a sua última hora, e, erguendo o pensamento até ao Céu, encarrega a Mãe de Deus de lhe receber a alma, pronunciando com toda a suavidade estes versos do hino eclesiástico:

Mãe de graças e Misericórdia
Maria piedosa e forte:
Livra a minha alma, recebe-a
Na hora da minha morte.
A seguir, recita com visível comoção algumas orações; os olhos fecham-se lentamente, o peito deixa de arfar, e todos os presentes, estupefactos ante aquele quadro tão emocionante, compreendem que a alma pura da Rainha Santa, solta do seu venerável corpo, subia aos céus a receber o prêmio das suas virtudes, descansando para sempre na paz do Senhor, onde eternamente gozará a bem-aventurança com que Deus premeia os seus eleitos.

É, pois, no reino celestial que a nossa Santa Protetora está recebendo o prêmio das suas boas ações e dos seus constantes trabalhos. Ali, no seio de Deus, junto da Virgem Santíssima, intercede pelo seu povo, por aqueles que a ela recorrem com a alma angustiada pelas dores humanas, e que jamais esquecem o seu nome para lhe tributar as homenagens do seu reconhecimento. Essas homenagens concretizam-se no culto (12) fervoroso de todos os portugueses pela Santa Rainha, e, mui especialmente, do povo de Coimbra que por Ela nutre o maior respeito e a mais significativa devoção.

CAPITULO IV - Trasladações

Logo a Rainha Santa ter entregado a sua alma a Deus, o primeiro cuidado da Corte foi escolher local para depositar o corpo de tão excelsa Senhora, opinando uns para que fosse sepultado no Convento dos Franciscanos, em Estremoz, e outros para que fosse trasladado para a Sé de Évora, a cidade mais próxima daquela terra. Por conselho de El-rei, procurou-se o testamento de D. Isabel, e, vendo-se por ele que a Rainha Santa queria ser sepultada em Coimbra, na Igreja de Santa Clara, foi respeitada esta vontade, dando-se logo ordens para se pôr em pratica o desejo ali expresso.

Apesar das opiniões em contrário, prevaleceram as determinações de El-rei.

O préstito fúnebre saiu de Estremoz na tarde do dia 5 de julho e, em marchas apressadas, chegou a Coimbra no dia 11 do mesmo mês, tendo atravessado tão longo percurso debaixo d’um sol abrasador.

As inúmeras pessoas que constituíam o préstito fúnebre foram tomadas de verdadeiro espanto quando, ao 3º dia de viagem, notaram que o ataúde onde vinha o corpo de Santa Isabel principiava de abrir algumas fendas, escorrendo por entre elas um liquido que todos supuseram ser proveniente da decomposição do cadáver (13).

Mas, feliz engano! Esse liquido, longe de exalar qualquer cheiro desagradável, antes era ameno e consolador, espalhando no espaço um tal aroma que, aqueles que a princípio se sentiam inquietos e desconfiados, logo se aproximaram do ataúde, louvando ao Senhor por esta manifestação da Sua omnipotência.

Quando o cortejo chegou a Coimbra, deram-se então cenas comovedoras e lancinantes entre a população citadina. Todos, à porfia, queriam beijar o ataúde onde vinha a sua Protetora, a sua desvelada Benfeitora, ouvindo-se choros de verdadeiro compungimento pela morte da virtuosa Rainha, cujo passado tinha sido um manancial de graças e bondade!

Quando o ataúde deu entrada na igreja de Santa Clara, muita gente supôs que o corpo da Rainha Santa seria exposto à veneração do público. Tal se não deu; no dia seguinte, 12 de julho, é que se celebraram os ofícios divinos por alma de D. Isabel, sendo estes actos revestidos de toda a solenidade e com a assistência de alguns Prelados, Professores da Universidade, Rei, Cabido e muitos religiosos das diversas ordens.

Logo que eles terminaram, foi o ataúde transportado para uma capela que a Rainha Santa havia mandado edificar ao fundo da Igreja e na qual estava o túmulo de pedra que em sua vida também mandara construir.

Foi dentro deste precioso monumento de pedra, ricamente cinzelado, que se colocou o ataúde tal qual veio de Estremoz, envolvido numa pele de boi e com um pano de brocado repregado por cima.

Sobre o ataúde colocaram o bordão de peregrina e uma bolsa que o Arcebispo de S. Tiago de Galiza ofereceu à Rainha Santa quando ela visitou esta cidade (14), sendo em seguida fechado o túmulo com a pesada pedra que ainda hoje o cobre e na qual vemos representada a figura da Rainha Santa com habito de freira.

Assim se conservou até ao dia 26 de março de 1612, 276 anos depois da sua morte, dia em que foi aberto por consentimento do Sumo Pontífice.

Esta cerimônia, que se tornou necessária para se proceder ao processo de canonização de D. Isabel, foi presidida pelo Bispo de Coimbra, D. Afonso de Castelo Branco, e, tendo como assistentes, D. Martim Afonso, Bispo de Leiria, Dr. Francisco Vaz Pinto, dois médicos, um cirurgião e algumas testemunhas, a quem foi confiado o encargo de examinarem os restos mortais da Rainha Santa.

Pedimos licença para trasladar para aqui o relato que sobre esta cerimónia encontramos no autorizado (15) livrinho — "Historia Popular da Rainha Santa Isabel" — Protetora de Coimbra.

“Subindo à capela superior, onde estava o túmulo, e analisando-o com todo o cuidado por fora, acharam-no exatamente como havia ficado 276 anos antes, quando sobre ele se colocara a tampa, depois de introduzido o ataúde que encerrava o corpo. Apenas a piedade dos fieis o havia rodeado de demonstrações da fé e amor que os prendia Àquela cujos restos ali estavam encerrados.

“Ninguém sabia se o túmulo continha somente os ossos da santa Esposa de D. Dinis, se mais alguma coisa que ainda restasse do corpo e mortalhas; por isso, todos estavam ansiosos por que o túmulo se abrisse.

“Retirada a pedra, encontrou-se a bolsa e o bordão de peregrina, que foram pelo bispo-conde entregues à guarda das religiosas.

“O ataúde ainda se achava envolvido em restos da pele de boi e da tela vermelha que havia sido repregada por cima.

“Com dificuldade se despregou a tábua superior do ataúde, cortaram-se à tesoura os numerosos envoltórios em que a santa Rainha fora amortalhada em Extremoz, antes de ser metida no caixão, os quais, se encontraram com admiração de todos, em perfeito estado de conservação, como se ali tivessem sido colocados pouco antes.

“Por fim descobriu-se o rosto, peito e braço direito da nossa excelsa Protetora. Todos caíram de joelhos, estupefactos pelo grande milagre que viam!

“O corpo achava-se inteiro e incorrupto, branco como se fosse de cera, a cabeça coberta de louros cabelos, (16) perfeitamente seguros na pele, a boca e olhos fechados e bem compostos, tendo impresso na fisionomia o cunho da bondade e majestade que haviam sido apanágio da Rainha Santa. Vestia o habito de estamenha (b) das freiras de Santa Clara, e um pano branco de linho envolvia-lhe a cabeça. Do ataúde saia aroma suave.

“À vista de tal milagre, as religiosas cantaram o hino do velho Simeão, dizendo: ‘Agora, Senhor, já podeis deixar-nos morrer em paz, porque os nossos olhos viram as grandes maravilhas do vosso poder’.

“Feito pelos médicos e cirurgião o exame minucioso que se lhes pedia, consertaram-se de novo as mortalhas, o túmulo fechou-se, e de tudo se lavrou o auto competente”.

Com o decorrer do tempo e as sucessivas enchentes do Rio Mondego, muito grave se tornou a vida monástica no convento fundado pela Rainha Santa. Como as invernias (c) ameaçassem sepultar nas areias daquele rio as paredes do convento, as religiosas receavam, e com razão, ficar sepultadas sob os seus escombros, perdendo-se neles todas as preciosidades que enriqueciam a igreja e entre as quais devemos destacar o precioso corpo da Rainha Santa.

Em vista, pois, dos graves e constantes perigos a que estava sujeita a comunidade do velho mosteiro, dignou-se El-rei D. João IV ouvir os rogos das religiosas clarissas e mandou erigir no Monte da Senhora da Esperança um novo convento para sua habitação.

As obras deste grandioso edifício, que se prolongaram durante muito tempo, foram iniciadas no dia 5 de julho de 1649, e só no dia 29 de outubro de 1677 (17), 28 anos depois, ele estava apto a receber as referidas religiosas.

Por ordem do Príncipe regente D. Pedro, 2º filho de D. João IV, procedeu-se no dia 27 de outubro daquele ano à abertura do túmulo da Rainha Santa, assistindo a este acto alguns representantes da Corte, 8 Bispos, Professores da Universidade e muitos religiosos das diversas ordens de Coimbra. Como se verificasse que o caixão que guardava o corpo da Rainha Santa estava um tanto deteriorado, logo se procedeu à construção d’um outro que o substituísse e para o qual foi mudado o corpo da veneranda Padroeira de Coimbra. Durante esta operação, quis o acaso que se soltassem algumas pregas das roupagens que envolviam os despojos de Santa Isabel, podendo assim todos os presentes ver a mão direita desta virtuosa Rainha, alva como a neve, e em tão perfeito estado de conservação que logo provocou o natural e piedoso desejo de ser osculada, como o foi com efeito, por todos aqueles que tiveram a suprema felicidade de ali estar reunidos.

Duraram os preparativos da trasladação para o novo convento ainda 2 dias, e, em 29 de outubro, foi a Rainha Santa para ali conduzida em procissão, acompanhada de muitos milhares de pessoas, e tendo de atravessar por entre duas alas compactas de povo que se estendiam até ao novo convento.

Como a essa data não estivesse ainda concluída a igreja que hoje admiramos, foi o corpo da Rainha Santa conduzido para uma pequena sala existente ao fundo do Coro, colocando-se então no precioso e riquíssimo túmulo de prata (fig. 2) que D. Afonso de Castelo Branco, um dos mais notáveis Prelados desta diocese, mandara fabricar, e no qual ainda hoje se guarda o (18) precioso tesouro que Coimbra venera com o maior respeito e o mais devotado amor!

Concluída que foi a Igreja de Santa Clara, procedeu-se no dia 3 de julho de 1696 a nova trasladação da Rainha Santa para a tribuna da Capela-Mor, lugar em que esteve durante muitos anos e donde teve de mudar-se por causa da invasão dos franceses.

No dia 1 de outubro de 1810, tiveram as freiras conhecimento de que os soldados de Massena, enfurecidos com a derrota que tiveram no Bussaco dias antes, vinham a caminho de Coimbra. Sabedoras do pouco respeito que aos soldados franceses mereciam as preciosidades do nosso País, apressaram-se elas em esconder as melhores alfaias do Convento e, apressadamente, retiraram também do seu lugar o túmulo da Rainha Santa, o objeto da sua mais estremecida estima, indo ocultá-lo numa cela do dormitório, a última do lado esquerdo, onde dois pedreiros de absoluta confiança o (19) entaiparam, sob um arco que engenhosamente foi disfarçado com uma cortina de alvenaria.

Aí se conservou o túmulo da Rainha Santa até ao ano de 1814, data em que se restabeleceu a paz geral, sendo então novamente mudado para o seu lugar com grande regozijo das freiras clarissas e ainda mais do povo de Coimbra, que ansiosamente desejava acercar-se do túmulo da sua desvelada Protetora, da sua excelsa Padroeira.

Infelizmente, não pararam aqui as mudanças a que esteve sujeito o túmulo da Rainha Santa.

Quando em 1852 D. Miguel visitou esta cidade, resolveram as freiras, certamente no propósito de ver também a Rainha Santa, mudar o seu tumulo para o Coro Superior da igreja. Com efeito, no dia 21 de outubro daquele ano, foi D. Miguel a Santa Clara e aí, na presença das pessoas do seu séquito, foi aberto o caixão onde está o corpo da excelsa Rainha, esposa de D. Dinis.

Para o mesmo efeito foi, ainda, o túmulo da Rainha Santa mudado no ano de 1852, por ocasião da visita de D. Maria II a Coimbra, e em 1860, quando aqui esteve El-rei D. Pedro V. De então até 1912, conservou-se sempre o túmulo da Rainha Santa no referido Coro.

Como a esta data o Convento de Santa Clara não tivesse já quem zelosamente pudesse cuidar do túmulo da Rainha Santa, e porque o local onde ele estava não oferecia as necessárias condições de segurança, podendo facilmente ser violado por aqueles que vieram estabelecer residência neste convento, praticando talvez um desacato que ferisse profundamente as crenças dos devotos da Rainha Santa, conseguiu a Mesa desta Confraria que o (20) túmulo fosse mudado para o lugar que lhe era mais próprio, a tribuna da Capela-Mor da igreja, lugar onde agora se conserva e, segundo cremos, se conservará definitivamente. Porque esta mudança se deu em nossos dias, podemos aqui reproduzir com toda a fidelidade a forma como ela decorreu, louvando nós o Senhor por nos dar ocasião de presenciar tão emocionante como piedoso ato, cuja descrição respigamos d’um jornal desta terra [2].

“Do coro superior da Igreja de Santa Clara, foi no Domingo trasladado para a tribuna da Capela-Mor da mesma igreja, o riquíssimo túmulo de prata e a respectiva urna que encerram o venerando corpo da Rainha Santa.

“Esta trasladação, sem dúvida motivada pelos rumores que corriam nesta cidade, rumores estes em que se salientavam até actos menos respeitosos, fez-se com a possível reserva afim de evitar aglomerações nada convenientes ao bom êxito da trasladação.

“Ainda assim, o número de pessoas que se reuniu no templo de Santa Clara, na ânsia de assistir a tão piedoso acto, foi elevado, vendo-se ali representadas muitas das principais famílias de Coimbra.

“Perto das 5 horas da tarde, quando estavam concluídos os preparativos para a deslocação do túmulo, a entrada no coro foi rigorosamente interceptada, ficando ali apenas, além do pessoal necessário para a trasladação, os srs. Francisco José da Costa e Antônio Augusto Lourenço, da Mesa da Rainha Santa; Francisco Nazaré, (21) Joaquim Rasteiro Fontes, Custódio José da Costa, Adriano Ferreira Rocha e João Ribeiro Arrobas, os quais foram convidados a examinar as fitas lacradas que ligavam a tampa do túmulo.

“Verificada a sua inviolabilidade, foram quebradas as fitas e retirada de dentro do túmulo a urna em que repousa Santa Isabel. Esta operação, é bom frisá-la, foi feita com o maior respeito, e o seu bom êxito deve-se, sem dúvida, aos srs. Antônio Augusto Gonçalves e Antônio Viana, que, mui sensatamente, dirigiram os trabalhos da trasladação.

“No momento em que ia conduzir-se para a tribuna da Igreja o caixão em que se encerra o corpo da Rainha Santa, uma comissão de senhoras obteve do sr. Antônio Augusto Gonçalves permissão para conduzir a urna, sendo pois esta transportada pelas seguintes: D. Maria do Carmo Joice Dinis, D. Maria de Gusmão Galvão, D. Elvira Refoios de Matos, D. Maria José Joice Dinis, D. Maria Amelia Carneiro de Sousa Pires, D. Isabel de Sousa Coutinho (Linhares), D. Tafones Roxanes de Carvalho, D. Maria do Carmo Forjaz, D. Maria do Céu Pinto e D. Matilde de Matos Mancelos Aragão.

“Logo que a urna deu entrada na Capela-Mor, as inúmeras pessoas que ali a aguardavam prostraram-se respeitosamente na mais viva e sincera contemplação, vendo-se em muitos olhos o deslizar de lágrimas constantes. É que dentro daquele ataúde está em repouso, não só o corpo d’uma Mulher nobre por excelência e virtuosa e santa pelos rasgos generosos da sua cândida alma, mas, o que é mais, por estar ali concentrada a fé ardente e sincera de milhares de crentes que nos transes dolorosos da sua atribulada existência envolvem nas suas fervorosas preces o nome da Rainha Santa (22) como um balsamo consolador para as suas misérias e para as suas desditas.

“Por isso as pessoas que ali se reuniram para assistir à passagem da Rainha Santa viveram bem felizes aquele rápido momento da existência. A noite, porém, ia avançando e era forçoso pôr termo aos trabalhos da trasladação, colocando-se no local designado o ataúde da Rainha Santa.

“Feito este serviço o povo começou a retirar-se, louvando a nobre ideia de trasladar para a Igreja a santa querida que passou a vida na senda do bem, espalhando por toda a parte o perfume das suas rosas, que são aquelas que lhe engrinaldam o nome querido e ainda hoje digno de todo o respeito”.

CAPITULO V - Aberturas do túmulo e caixão da Rainha Santa

Por ser muito curiosa, damos neste lugar a notícia das vezes que tem sido aberto o túmulo e caixão da Rainha Santa.

A notícia descritiva desses actos tão solenes extraímo-la da notável obra do Exmo. Sr. Dr. Antônio Ribeiro de Vasconcelos — “D. Isabel de Aragão” —, primoroso trabalho que S. Exª. publicou em 1894, e que é bem um autêntico testemunho das suas altas qualidades de escritor erudito e consciencioso.

I. — Segunda feira, 26 de Março de 1612.

II. — Quarta feira, 27 de Outubro de 1677.

III. — Domingo, 11 de Janeiro de 1695, na capela que provisoriamente serviu de Igreja em o novo Mosteiro. (23)

IV. — Segunda-feira, 2 de Julho de 1696, às 8 horas da manhã.

V. — No mesmo dia, horas depois, nova abertura pelas freiras do convento, por estas não terem assistido como desejavam à primeira cerimónia.

VI. — No dia 4 do mesmo mês e ano foi novamente aberto o tumulo por se desconfiar que as freiras, num excesso do seu amor para com a Rainha Santa, se tivessem apropriado de algumas relíquias ou mesmo furtado o seu corpo, ocultando-o em sítio só por elas conhecido.

VII. — Segunda feira, 9 de Agosto, foi o tumulo aberto na presença de D. Pedro II.

VIII. — Domingo, 29 do mesmo mês e ano, na presença de D. Carlos, Arquiduque da Áustria.

IX. — Domingo, 21 de Outubro de 1832, na presença de D. Miguel e das Infantas, D. Isabel Maria e D. Maria de Assunção.

X. — Domingo, 25 de Abril de 1852, na presença de D. Maria II, de El-rei D. Fernando, seu esposo, do Príncipe real D. Pedro e do Infante D. Luís.

XI. — Quinta feira, 17 de Junho de 1852, para serem substituídas as vestes que amortalhavam a Rainha Santa por outras oferecidas por D. Maria II.

XII. — Quinta feira, 29 de Novembro de 1860, na presença de D. Pedro V e de seus irmãos D. Luís e D. João.

XIII. — Quarta feira, 22 de Outubro de 1862, na presença do Príncipe Humberto, depois Rei de Itália, que foi hóspede da nossa Universidade.

XIV. — Quarta feira, 9 de Dezembro de 1863, na presença de El-rei D. Luís e de sua esposa D. Maria Pia.

XV. — Quarta feira, 21 de Junho de 1865, na presença de D. Isabel Cristina, Princesa Imperial do Brasil e de seu esposo, o Conde de Eu. (24)

XVI. — Sábado, 4 de Julho de 1868, na presença do Infante D. Augusto.

XVII. — Segunda feira, 4 de Março de 1872, na presença de D. Pedro II, Imperador do Brasil.

XVIII. — Quarta feira, 14 de Maio de 1875, na presença de El-rei D. Fernando, do Infante D. Augusto e da Condessa de Edla.

XIX. — Terça feira, 24 de Dezembro de 1889, na presença dos Imperadores do Brasil.

XX. — Sábado, 25 de Julho de 1892, na presença de El-rei D. Carlos, D. Amelia e do Príncipe D. Luís Filipe.

Finalmente, no dia 28 de Março de 1912 procedeu-se a nova e última abertura do ataúde da Rainha Santa.

Como decorreu este acto di-lo uma das testemunhas que a ele assistiram e que fielmente fez reproduzir na “Gazeta de Coimbra”, de 30 de Março de 1912.

Como o número do jornal que publicou esta notícia foi rapidamente esgotado, embora a tiragem fosse muito aumentada, entendemos por bem reproduzir aqui o texto desse artigo:

“Noticiámos, há dias, a trasladação do túmulo com o corpo da Rainha Santa Isabel, do coro de cima do extinto Convento de Santa Clara, onde estava indevidamente desde novembro de 1860. Foi na quarta feira, 28 deste mês e ano, que as freiras clarissas, a pretexto de irem no dia seguinte o rei D. Pedro V com seus irmãos D. Luís e D. João àquele mosteiro beijar a mão da Santa Rainha, e mais comodamente o poderem fazer no Coro do convento de que na tribuna do Altar-Mor, (25) trasladaram o caixão com o corpo, e não mais o deixaram voltar para o seu sítio.

“Entretanto é indiscutível que muito melhor se acha na bela tribuna, revestida de talha dourada, propositadamente feita para ele sobre o Altar-Mor, onde esteve exposto à veneração dos fieis durante 146 anos, desde a tarde de 5 de Julho de 1696, em que foi para ali transportado em soleníssima procissão pelos Bispos da Guarda, Lamego, Portalegre, Vizeu, Leiria e Miranda, sob a presidência do Bispo-conde D. Fr. Alvaro de S. Boaventura, que oito dias antes, a 26 de Junho, havia sagrado a nova Igreja de Santa Clara.

“Hoje damos aos nossos prezados leitores uma outra notícia, ainda respeitante ao mesmo assunto.

“Espalhou-se, há tempos em Coimbra, com bastante insistência, o boato de que o túmulo da Rainha Santa havia sido violado; e, embora se verificasse, quando há dias se fez a trasladação, que os selos que o fechavam permaneciam intactos, é certo que recrudesceu depois disto o rumor de que o caixão transportado do Coro para a Capela-Mor se encontrava vazio. Em face de tal boato, tornava-se necessária a verificação, abrindo-se o túmulo com devidas formalidades, antes da aposição de novos selos.

“Foi este acto que se realizou anteontem, quinta-feira, 28 do corrente, pelas 9 horas da manhã.

“Achavam-se presentes apenas os srs.: cônego José Dias d'Andrade, representando o sr. Bispo Conde; Antônio Augusto Gonçalves, presidente da Câmara Municipal e diretor do museu Machado de Castro; dr. Joaquim Mendes dos Remédios, reitor da Universidade; dr. Antônio José Gonçalves Guimarães, professor da faculdade de ciências: dr. António Garcia Ribeiro de Vasconcelos,(26) presidente da Confraria da Rainha Santa Isabel; Francisco José da Costa, tesoureiro da mesma; António Viana, fiel do museu Machado de Castro.

“Principiou por ser presente um invólucro, devidamente lacrado e selado, no qual externamente se lia a declaração de que continha as chaves do caixão da Rainha Santa, que ali foram encerradas e seladas a 23 de julho de 1892, em seguida ao acto de ser fechado o túmulo, depois da visita que a ele fizeram naquele dia o rei, rainha e príncipe. Verificado que os selos estavam intactos, foi aberto o invólucro, e apareceram duas chaves, uma de prata e outra de ferro, ligadas por uma cadeia de prata.

“Depois, abriu-se o túmulo de prata, e tirou-se dele o caixão de madeira, forrado de rico brocado de seda e ouro, e com quatro belas fechaduras. Todos verificaram cuidadosamente que não acusava sinal algum de arrombamento; e em seguida, abertas as fechaduras e retirada a tampa, apareceu uma ostentosa colcha de brocado, igual ao que veste por dentro e por fora o caixão, sendo guarnecida de galão de ouro, e forrada de seda carmesim. Levantada esta cobertura, apareceu outra perfeitamente igual à primeira, e por baixo dela um véu transparente, através do qual se via nitidamente a mão da Santa Padroeira, e o habito de seda cinzenta que vestia o corpo. Cobrindo-lhe a cabeça havia um véu espesso de seda branca, sobre outro de fino linho, que lhe desciam até ao peito.

“Levantaram-se sucessivamente todos estes véus, e observou-se minuciosamente a mão direita, o rosto e os dois pés, que estão descalços e em perfeito estado de conservação. Não se levou mais longe o exame, por ser desnecessário. (27)

“A mão da santa e virtuosíssima Esposa de D. Dinis foi beijada com piedoso fervor por aqueles dos presentes que tiveram essa devoção.

“Terminado o acto de verificação, foi fechado o caixão e encerrado no túmulo de prata, com aposição de seis selos. Depois selaram-se novamente as chaves, e lavrou-se o respectivo auto.

“E assim ficou perfeitamente demonstrada a absoluta falsidade dos boatos que correram, e a que muita gente parecia dar crédito”.

CAPITULO VI - A Igreja de Santa Clara

Esta igreja fica situada numa vistosa colina fronteira à cidade, estando precedida d’um espaçoso pátio quadrilongo, do qual se desfruta um dos mais belos e ricos panoramas de Coimbra. À entrada deste pátio, encontra-se ainda hoje uma forte corrente de ferro que servia para dar o direito de defesa aos criminosos perseguidos.

O templo, que é de magnifica construção e de uma só nave, é fabricado no estilo romano; os retábulos dos seus altares são dignos de ser admirados, revelando-se neles a perfeição e gosto artístico que presidiu à sua execução.

Ao fundo da igreja, e aos lados da grade do Coro, estão dois túmulos de pedra artisticamente ornados, tendo nos tampos figuras de mulheres jacentes. O do lado do Evangelho, encerra os ossos da Infanta D. Isabel, filha de D. Afonso IV, falecida com pouco mais de 2 anos (28), e o do lado da Epistola supõe-se conter os restos de D. Maria, filha de D. Pedro I e de D. Constança.

Estes dois túmulos vieram também do velho Convento de Santa Clara, logo após a mudança da comunidade.

Dentro do Coro da igreja, em lugar menos próprio por falta de luz, conserva-se ainda hoje o túmulo de pedra onde primitivamente esteve depositado o corpo da Rainha Santa, túmulo este que, segundo as melhores opiniões, ela mandara fabricar em vida. As suas faces laterais são guarnecidas de várias imagens e de onze estatuetas de freiras metidas em nichos de gracioso desenho.

Sobre este túmulo, vê-se estendida a figura da Rainha Santa envolta no hábito de freira clarissa, sobraçando o bordão de peregrina, uma bolsa e um livro de orações.

A cabeça da imagem, primorosamente esculturada, repousa num largo almofadão a coberto d’um elegante baldaquino, sendo este ladeado por dois anjos, em atitude de turificarem (d) a Rainha Santa.

Tanto este Coro como o que lhe fica superior eram adornados com riquíssimos altares de boa talha, muitos quadros de subido valor e bastantes imagens por quem as religiosas nutriam a mais piedosa devoção.

Muitos destes preciosos objetos estão depositados no Museu Machado Castro, de Coimbra.

Voltando à igreja, onde se admira a preciosa estátua da Rainha Santa, essa delicada joia que Teixeira Lopes delineou em momentos de feliz inspiração e perante a qual instintivamente se têm curvado tantos milhares de pessoas de todas as classes sociais, chamamos a atenção do leitor para os quadros que adornam a Capela-Mór da igreja, quase todos referentes à vida da Rainha Santa, e recomendamos-lhe especialmente a sua (29) visita ao Museu de alfaias religiosas, que a Confraria instituiu junto da igreja e aonde se encontram algumas preciosidades de raro valor artístico. 

Esse museu, que fica situado ao lado direito da Capela-Mor, é precedido d’um espaçoso corredor que serve de Galeria dos Irmãos Beneméritos. Ao fundo, noutra sala mais espaçosa, estão guardados os objetos de maior valor pertencentes à Confraria, figurando entre eles alguns que eram do uso da Rainha Santa. Neste precioso museu, está exposto um colar de pedras preciosas com que a Rainha Santa costumava adornar as donzelas pobres no dia do seu casamento, guardando-se também ali algumas peças do seu vestuário e a roupa com que foi amortalhada. Todos estes objetos devem merecer uma particular atenção ao visitante de Santa Clara.

A respectiva Confraria é digna dos maiores louvores pela dedicação e zelo que tem mostrado na conservação deste Museu, procurando enriquecê-lo cada vez mais com a aquisição dos objetos que digam respeito à Rainha Santa. Ultimamente, foi ali exposto o “Breve Original”, obtido por El-rei D. João III da Cúria Romana, e pelo qual é extensivo a toda a nação o culto de Santa Isabel. Este documento, muito bem conservado ainda, é digno de particular atenção pelo fino desenho dos seus ornatos e caracteres.

O claustro de Santa Clara, situado ao lado esquerdo da igreja, é também digno de ser visitado. As suas majestosas proporções, as arcadas, e as graciosas varandas que o circundam, formam um conjunto agradável ao nosso sentimento, transportando-nos à vida d’um mundo superior, em tudo mais perfeito e harmonioso.

O nosso espírito banha-se d’uma clarividente realidade que nos inebria, que nos consola e seduz. Na paz daquelas arcadas (30), contemplamos o mundo despido de lutas inglórias, de ódios e malquerenças, e a nossa imaginação, livre das contrariedades e dos sobressaltos fomentados pela vida presente, embala-se no doce arroio das avezinhas que saltitam pelas arvores floridas quase obrigando os nossos lábios a murmurar com elas:

“Bendito seja o Senhor!”.

O vasto e grandioso edifício de Santa Clara, onde durante alguns séculos se abrigaram muitas senhoras da mais pura linhagem, e onde se praticaram tantos actos de piedosa devoção, serve hoje de quartel ao Regimento de Infantaria 35.

A parte que serviu para hospedaria do Mosteiro e que está situada do lado sul, é hoje ocupada por um grupo do Regimento de Artilharia.

As festas com que Coimbra rende o seu culto à Rainha Santa são das mais importantes e fervorosas que se realizam em Portugal. Nos anos em que são levadas a efeito, a cidade veste-se das melhores galas para receber a sua excelsa Padroeira e todos os conimbricenses, num amplexo de verdadeiro regozijo e satisfação, cooperam no brilhantismo desses festejos esforçando-se para lhe dar o maior luzimento possível.

A grandiosa procissão em que é conduzida a imagem da Rainha Santa compõe-se de inúmeras Confrarias e centenas de crianças vestidas de anjo, fazendo o trajeto (31) de Santa Clara para Santa Cruz, por entre milhares e milhares de pessoas que de todos os pontos do País vem para assistir a tão emocionante como grandioso espetáculo. As festas da Rainha Santa, que se prolongam durante 5 dias, costumam atrair a Coimbra perto de 60.000 pessoas, não se registrando nunca qualquer desacato que possa ofuscar o brilho e a imponência dessas tão piedosas como emocionantes manifestações.

Com a procissão da Rainha Santa, dá-se até um facto que nos apraz registar: quando a preciosa imagem de Santa Isabel dá entrada na cidade, e ao ter de atravessar por entre a multidão que a aguarda desde a Ponte até Santa Cruz, não há joelho que deixe de se dobrar ante a majestade da sua figura! Todo aquele mar humano, que se apinha em tão longo trajeto, se curva respeitosamente perante a doce imagem da Rainha Santa, vendo-se muitos olhos marejados de lágrimas devido à comoção que todos experimentam.

É que aquela Imagem é o refúgio de todos os crentes. Nela estão concentradas as preces dos que sofrem, os rogos dos infelizes. E se o povo português nutre por Ela a mais terna devoção, o povo de Coimbra, que a elegeu sua medianeira junto de Deus, não esquece nunca a sua benéfica acção em prol dos desprotegidos, tributando-lhe um amor puríssimo e uma veneração a mais sublimada! Continue Ela a amercear-se (e) do seu povo junto de Deus, e oxalá a sua poderosa influencia consiga tornar felizes na terra aqueles que lhe solicitam a sua proteção no Céu.

Anonymus in Projeto Gutemberg: https://www.gutenberg.org/ebooks/35324

[1] D. Isabel de Aragão, Coimbra, 1894.
[2] Gazeta de Coimbra, de 20 de março de 1912.

Notas

(a) Frades crúzios. Cónegos Regulares da Ordem da Santa Cruz.
(b) Estamenha; Tecido ordinário feito de lã.
(c) Invernias. Tempo muito frio e com o aparecimento de chuvas contínuas; inverno.
(d) Turificar. Incensar
(e) Amercear-se. Ter misericórdia, compaixão.



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