terça-feira, 22 de setembro de 2020

O inquérito romano relativo à Missa Tradicional revisitado

No dia 7 de Março passado, a Congregação para a Doutrina da Fé lançou junto de todos os bispos da Igreja latina um inquérito sobre a aplicação do motu proprio Summorum Pontificum, com o fito de auscultar também quais as necessidades sentidas no âmbito da forma extraordinária do rito romano (veja-se a carta 744 de 4 de Maio de 2020). Muitos foram os que então, mas ainda hoje, se inquietaram e se inquietam a propósito do que se seguirá a uma tal medida. Pedimos, por isso, a Christian Marquant, presidente de “Oremus-Paix Liturgique” que nos desse conta das suas impressões, agora que são volvidos sete meses sobre o lançamento dessa iniciativa.


Paix Liturgique: Na sua opinião, qual o motivo de se ter decidido levar a cabo este inquérito?

Christian Marquant: Por um lado, é notório que, em Roma e no episcopado italiano, existe uma tendência que preferiria que a missa tradicional e, mais ainda, os institutos “Ecclesia Dei” ficassem sob a alçada do direito comum, isto é, que ficassem submetidos, respectivamente, à Congregação para o Culto Divino e à Congregação para os Religiosos (como era conhecida). A resposta do Papa, que sofre tais pressões, foi a resposta clássica de um governo que procura furtar-se à crítica: organizar um inquérito. Para além disso, é também normal que a Santa Sé queira obter mais informações sobre a situação e o desenvolvimento actual no âmbito do universo Summorum Pontificum, e isto fá-lo segundo o método que é habitual em Roma: interroga-se os bispos. O que até então acontecia por ocasião e no decurso das visitas ad limina que os bispos fazem a Roma, país por país, decide-se agora fazer a nível mundial. E é por isso que, no fim de contas, tomo este inquérito como uma boa notícia, na medida que esse deveria obrigar os nossos pastores diocesanos a abandonarem a situação de negociacionismo autístico em que tão amiúde se encerram diante da nossa realidade. Isso, se, pelo menos, responderem objectivamente às questões que lhes foram postas.


Paix Liturgique: E crê que as autoridades vaticanas não conhecem de facto esta realidade?

Christian Marquant: Apenas imperfeitamente, porque apenas se ocupam de uma parte desta realidade. Desde há muito tempo (desde as conversações com Mons. Lefebvre, que fracassaram em 1988, e desde o reinício dessas conversações, a partir de 2000 até às últimas eleições da FSSPX), a atenção das autoridades vaticanas voltou-se exclusivamente para a Fraternidade São Pio X. Para quem não está a par da realidade das coisas, importa dizer que ela, não sendo a totalidade, constitui ainda assim o núcleo essencial do mundo tradicional, conquanto, e isto cada vez mais, ela não seja senão um dos elementos – ainda que importante – do universo ligado à liturgia e ao catecismo tradicionais. Depois, para a Roma pós-conciliar, ela representa também um insucesso simbólico de grande monta, uma pedra no sapato: desde que a Igreja, com o Vaticano II, se abriu ao ecumenismo, não conseguiu fazer reentrar no seu seio qualquer comunidade separada (excepto um certo número de anglicanos); pelo contrário: teve sim de enfrentar uma nova ruptura, a da FSSPX.


Paix Liturgique: Entende que a prioridade dada a este interesse particular é um erro?

Christian Marquant: Não me cabe julgar das prioridades e dos polos de interesse das autoridades romanas. Ainda assim, atrever-me-ia a dizer que interessar-se essencialmente pela questão da Fraternidade São Pio X, para essas mesmas autoridades, tem representado uma falta de profissionalismo, por carecer de uma análise objectiva e duma visão da realidade tal como ela é. Roma acabou por ficar contaminada pela questão da FSSPX, porque esta era a vitrina da oposição ao Concílio, porque, desde 1974, se tornou um reservatório de sacerdotes tradicionais e porque, em 1988, se realizaram as consagrações episcopais. Quanto ao resto do universo tradicional, em 1988, a Santa Sé estabeleceu-lhe uma situação de tolerância (Ecclesia Dei), que teoricamente se veio a tornar uma situação de direito em 2007 (Summorum Pontificum), mas não olha para o fenómeno como ele é na realidade nem para o que ele se vai tornando dia após dia. As conferências episcopais nacionais fizeram ainda pior, interpretando sempre em sentido minimalista as decisões de Roma.


Paix Liturgique: Porquê?

Christian Marquant: Neste plano do episcopado, o que frequentemente se encontra é uma cegueira. Verifico que a maioria dos nossos pastores não dedicaram muita energia a tentar compreender o movimento tradicional e o potencial que ele apresentava. Procuraram simplesmente ostracizá-lo por meio de ataques, e amiúde, é preciso dizê-lo, com retoques de consumado despropósito ou tolice, enquanto continuavam a afirmar a torto e a direito que não havia qualquer problema litúrgico ou catequético, quando mais de 90% dos católicos da Europa ocidental se afastavam da Igreja!...


Paix Liturgique: Mas será que poderiam ter visto as coisas doutra maneira?

Christian Marquant: Certamente que sim. Bastaria abrir os olhos. Desde há três anos que publicamos e expomos qual a situação da liturgia tradicional no conjunto dos continenentes do globo. Damo-nos logo conta de que o universo Summorum Pontificum está em constante desenvolvimento. Hoje, inclusivamente, está mais difundido e é mais importante do que o universo da São Pio X. E os dois juntos, representam na Igreja um conjunto que cada vez menos admite ser ignorado, no meio de uma derrocada do ponto de vista do número de sacerdotes e de religiosos (no Ocidente) como do ponto de vista da doutrina (por todo o lado).


Paix Liturgique: Crê que as proporções desta situação vão aumentar?

Christian Marquant: Com efeito, é o que irá acontecer. Importa notar, em primeiro lugar, que as iniciativas tradicionais no âmbito Summorum Pontificum são hoje muito numerosas – pense-se, em França, na rede de escolas privadas sem contrato com o Estado – e que o seu público vem multiplicar o da liturgia tradicional. O crescimento do número de lugares onde se celebra a missa tradicional foi objecto de uma medição exacta por ocasião dos 10 anos do motu proprio (grosso modo, esse número duplicou). Este crescimento irá continuar. A par disso, se, quando se pensa no universo tradicional, importa que evitemos centrar-nos na FSSPX, por outro lado, ao pensarmos no meio tradicional “oficial”, também convém evitar não ir além das comunidades “Ecclesia Dei”. É bem verdade que, no que toca a sacerdotes e apostolados, elas mostram estar em pleno vigor, mas observamos que o movimento Summorum Pontificum é hoje maioritariamente diocesano e paroquial, o que deixa entrever um futuro desenvolvimento rápido e praticamente ilimitado.


Paix Liturgique: Não haverá aí algum exagero?

Christian Marquant: Lembro que, nos últimos 20 anos, já levámos a cabo mais de 40 sondagens de opinião, não apenas em França, mas nos principais países europeus e, agora, em todos os continentes... Ora bem, os resultados são muito significativos, indicando que, por todo o lado, quaisquer que sejam as regiões analisadas ou a cultura dominante aí presente, deparamos com pelo menos 30% dos católicos praticantes que desejam viver a sua fé católica ao ritmo da liturgia tradicional. Já não se trata, por conseguinte, de umas quantas ilhotas de nostálgicos que possamos apontar e contar pelos dedos: estes 30% de fiéis representam hoje centenas de milhões de católicos que, decididamente, não estão satisfeitos com a liturgia que se lhes apresenta.


Paix Liturgique: Trata-se de uma novidade?

Christian Marquant: De todo! O ribombar mediático pós-conciliar que nos foi matraqueando mascarou a realidade e quis fazer crer que todos os católicos eram fervorosos apoiantes das novidades: ora, isso é falso, e sempre foi falso! Mas aqui, como em tantos outros domínios, as elites, e assim, as autoridades diocesanas, não quiseram dar ouvidos, e, hoje, deparam com esta realidade diante dos olhos e não a compreendem.


Paix Liturgique: É por isso, então, que se alegra com este inquérito romano enviado a todos os bispos do mundo?

Christian Marquant: Há pouco, comecei por falar dos bispos italianos hostis ao desenvolvimento da liturgia tradicional. Pois eles aperceberam-se tão bem do perigo deste inquérito – cujos resultados serão tratados pelo pessoal do departamento da Congregação para a Doutrina da Fé encarregue da liturgia tradicional –, que, por própria iniciativa, decidiram modificar o método ditado por Roma: os bispos italianos receberam da sua Conferência Episcopal a ordem de enviar as suas respostas, não à Congregação para a Doutrina da Fé, mas sim à Conferência Episcopal Italiana, encarregando-se ela própria de os tratar, de fazer uma síntese e de os enviar à Santa Sé.

Não podendo ser ingénuo (sei bem que os opositores da liturgia tradicional continuarão a fazer de tudo contra ela), vejo nisto a prova de que a verdade incomoda. Ora, esta verdade é o peso que tem o universo Summorum Pontificum, enquanto o mesmo representa o descontentamento duma fracção muito considerável dos católicos de todos os países do mundo.


Paix Liturgique: Crê, portanto, que este estado de coisas incomoda? 

Christian Marquant: É o que acho, e dou-lhe uma razão: dias atrás, o nosso amigo Marco Sgroi, presidente da Coordenação Summorum Pontificum de Itália, anunciava-nos que, em 2019, ou seja, no espaço de apenas um ano, o número dos lugares onde se celebra a liturgia tradicional em Itália, passara de 129 para 134, ou seja, mais 5 novos lugares de culto, um crescimento de 4% no âmbito de 77 das 222 dioceses latinas italianas, e que, em Itália, os pedidos de celebração são cada vez mais numerosos (pelo menos, trinta pedidos conhecidos, situados na maior parte em dioceses onde, actualmente, a liturgia tradicional não é celebrada); e sabemos que nesse país, como em muitos outros, se esteve a martelar anos a fio que o “problema tradicional era um problema franco-francês”... Bem se pode compreender que, hoje, o episcopado italiano esteja inquieto como outrora foi o caso do episcopado francês.


Paix Liturgique: Parece, então, que está optimista?

Christian Marquant: Por natureza e por esperança crsitã. No caso vertente, contra ventos e marés, o facto é que já não será mais possível negar o desenvolvimento da liturgia tradicional. Isto, se quisermos ser honestos. Mas, nem por isso, desaparecerá a má fé, também o sabemos. Haverá quem continuará a afirmar, contra toda a réstea de bom senso, que este movimento e os seus fiéis não existem. Na Carta 744 da “Paix Liturgique”, relatava-se que o mais virulento dos inimigos da liturgia tridentina, o Professor Andrea Grillo, que ensina na Pontifícia Universidade de Santo Anselmo, havia lançado uma petição a 1 de Abril de 2020 em que se pedia que esta liturgia cessasse de gozar de um estatuto de excepção e que fosse plenamente submetida aos bispos diocesanos e à Congregação para o Culto Divino. Dito doutro modo, o escopo dos inimigos da missa tradicional é que ela fique sujeita aos bispos, e, por fim, seja aniquilada.


Paix Liturgique: E isso não será possível?

Christian Marquant: Não! Primeiro, porque a ligação à missa tradicional é como que consubstancial à fé católica, na medida em que se trata de uma ligação a uma lex orandi muito pura da Igreja romana. A Igreja romana, e por conseguinte a sua fé litúrgica, têm palavras de vida eterna. Não Andrea Grillo.

Muitas foram já as tentativas para sufocar esta liturgia e tudo o que ela traz consigo, já lá vão 50 anos, e todas se demonstraram infrutíferas. Mais o serão amanhã, com o passar do tempo, em virtude do risco de se ver deflagrar uma guerra litúrgica bem mais intensa do que a dos anos 70, num corpo eclesiástico hoje extremamente fragilizado... Alguém imagina o Papa Francisco que, amanhã, lança uma cruzada clerical – horresco referens – contra os que amam o silêncio e a piedade tradicional? Para mim, creio ser impensável, e, sobretudo, impossível.


Paix Liturgique: Se assim é, o que se pode esperar deste inquérito?

Christian Marquant: Não sei, mas, assim o espero, poderá vir a ajudar a que se tome consciênciada da amplitude do fenómeno tradicional. É que estou persuadido de que, dentro de cinquenta anos, a maior parte dos sacerdotes diocesanos ou religiosos já serão, pelo menos, algo bi-ritualistas, e a liturgia tradicional será reconhecida por todos, tanto por fiéis como por sacerdotes, como um tesouro espiritual e teológico da Igreja romana.

Carta 105 - Paix Liturgique em Português

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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

A vocação de São Mateus

«Jesus viu um homem chamado Mateus,
sentado no posto de cobrança, e disse-lhe:
«Segue-me!» E ele levantou-se e seguiu-O.»

A beleza deste episódio é que não se trata de ficção
Mas da história real de um homem concreto
Frágil como eu, pecador como eu.

A beleza desta história é que se repete no tempo,
Com cada homem e cada mulher que um dia cruzou o seu olhar com o olhar de Jesus.

Porque Ele permanece vivo e verdadeiro, contemporâneo e próximo, olha para mim com o mesmo olhar de bondade e misericórdia que penetrou até ao fundo o coração daquele cobrador de impostos.

E eu bem sei que assim foi. E eu bem sei que assim é!
Posso disfarçar, posso distrair-me, mas não o posso negar.

Afinal a diferença entre mim e S. Mateus
é a radicalidade do seguimento de que ele foi capaz,
jogando toda a sua liberdade, arriscando tudo,
até ao último bater do seu coração.

Eu quero seguir-Te, Senhor,
eu quero ser Teu, como o Teu Apóstolo.
Não Te canses de me desafiar,
não Te canses de me chamar...
até ao meu último instante.

Rui Corrêa d'Oliveira in Bom dia


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domingo, 20 de setembro de 2020

Sacerdote foi proibido de publicar vídeos depois de recomendar aos fiéis que não usem máscara

O Padre Daniel Nolan é um sacerdote da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro que trabalha na paróquia de Nossa Senhora do Monte Carmelo, em Littleton, Colorado.

O Padre Nolan, num encontro com paroquianos, cujo vídeo correu as redes sociais, explicou que, para uma pessoa saudável, a probabilidade de morrer de Covid é 0,006% e que ninguém os pode obrigar a usar máscara:

"Eles não nos podem obrigar a usar máscara. É uma mentira. Eles estão a mentir a todos nós. Não usem máscara. Mesmo que o vosso Bispos vos diga para usar não usem. E digo-vos: desobedeçam ao vosso Bispo, desobedeçam ao Governador. 

Devemos obedecer antes a Deus do que aos homens. E se o Bispo vos der uma ordem que pode prejudicar a vossa saúde, que é contra a razão, que é contrária ao bem-comum desobedeçam a essa ordem."

Os superiores do Padre Nolan, com o apoio da Arquidiocese de Denver decidiram proibi-lo de publicar vídeos na internet.


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14 correções do Papa Bento XVI a grande parte das Missas celebradas hoje em dia

Quando ainda era Cardeal, o Papa Bento escreveu um pequeno, mas importante livro, chamado: Introdução ao Espírito da Liturgia. Nele, o Cardeal Ratzinger procurou corrigir muitas das novas concepções litúrgicas que transformaram o modo como o clero e os fiéis olham para a Santa Missa. Deixamos aqui 14 delas:
I. A celebração versus populum é uma fabricação a-histórica. A Santa Missa não é um banquete.
“Em nenhum lugar da antiguidade cristã se conceberia a ideia de que o presidente de um banquete se postasse versus populum. O caráter comunitário de um banquete era sublinhado por uma ordem contrária, a saber, pelo facto de que todos os participantes ficavam do mesmo lado da mesa. A esta análise da forma do banquete deve ser acrescentado que a Eucaristia dos cristãos, de modo algum, pode ser suficientemente explicada com o conceito de banquete. Pois que o Senhor estabeleceu a novidade do Culto Cristão no ambiente de um banquete pascal judaico, mas ordenou que se repetisse somente o que fez de novo, e não o banquete.” (p. 68)
II. Contra o clerocentrismo pós-conciliar e a ideia de que, de algum modo, a Liturgia depende, como de uma fonte, dos assistentes leigos que enchem os presbitérios.
“Em verdade, com isso [a ideia de que o banquete é norma para a Missa], realizou-se um clerocentrismo litúrgico, que antes nunca existira. Agora o sacerdote, ou melhor, o ‘presidente’, como se prefere chamá-lo, é o ponto de convergência para todos, tudo depende dele e ele deve ser visto, (…) sua ‘criatividade’ sustenta tudo. Por isso, era razoável que se procurasse uma medida para reduzir este papel novo que fora criado. Isto se deu pela distribuição de multiformes atividades a grupos leigos, confiando à sua criatividade o papel de ‘criar’ a forma da celebração. Estes grupos acabam colocando-se a si mesmos em primeiro plano, fazendo com que Deus esteja cada vez mais ao lado.” (p. 69)
III. No centro do Altar deve ficar, bem visível, a Cruz.
“A Cruz deve ficar no meio do altar, deve ser, para o sacerdote e a comunidade, a ponto de mira, de convergência dos olhares… Eu considero verdadeiramente absurda a invenção, aparecida nos últimos anos, de colocar a Cruz ao lado, a fim de que se possa ver livremente o sacerdote. Acaso a Cruz causa estorvo à celebração Eucarística? É o sacerdote mais importante que o Senhor? Este erro deve ser corrigido o quanto antes. Isto é possível sem novas construções.” (p. 73)
IV. Uma Igreja sem a Presença Eucarística é morta. A comunhão exige adoração Eucarística.
O Cardeal aponta a seguinte objeção: “A Transubstanciação do Pão e do Vinho, a Adoração do Senhor no Santíssimo Sacramento, o culto Eucarístico com ostensório e procissões – tudo isso seriam erros medievais, que devem ser eliminados de uma vez por todas. Os dons Eucarísticos são para comer, não para contemplar” (p. 74). Mas depois responde: “Comer a Eucaristia é um acontecimento espiritual e de todo homem. Comungar é adorar. Comungar significa deixar o Senhor em mim de tal modo que eu seja transformado… Assim, a Adoração não está contra, nem ao lado da Comunhão. Na verdade, esta só é bem acolhida e alcança a sua profundidade quando recebida e abraçada com Adoração. A presença Eucarística no Sacrário não constitui um conceito contraditório do da celebração Eucarística, mas é necessária para a sua plena realização… Uma igreja sem presença Eucarística é, de qualquer modo, morta. Mas a igreja onde, diante do Sacrário, está acesa a luz eterna, vive sempre, é muito mais que um mero edifício de pedras. É mister que na arquitetura da igreja o Sacrário se encontre no lugar que revela a Sua primordial importância” (p. 74).
V. O iconoclasmo é a negação da Encarnação.
“Os concílios da antiguidade cristã consideram as imagens (ícones) como uma profissão de Fé na Encarnação… e o iconoclasmo como negação da Encarnação e soma de todas as heresias” (p. 105). “O ‘novo iconoclasmo’ foi considerado muitas vezes como mandato do Vaticano II… A iconoclastia afastou alguma coisa indigna, mas deixou um grande vão, cuja penúria nós sentimos muito fortemente” (p. 112).
VI. Dançar na Liturgia é coisa não cristã. É sinal de perda total da Liturgia.
“A dança não é um modo de exprimir-se da Liturgia Cristã. Representantes de círculos gnósticos-docetistas procuraram, no século III, introduzir a dança na Liturgia. Para eles a Crucifixão era mera aparência… Totalmente absurdo é que, na tentativa de fazer a Liturgia mais atrativa, se façam pantominas dançantes (inclusive com grupos profissionais) que sempre terminam em aplausos. Sempre que surgem aplausos para uma ação humana na Liturgia, esta é totalmente perdida, sendo substituída por uma espécie de ‘divertimento’ com intenção supostamente religiosa. Tal atrativo é de curta duração; no mercado dos divertimentos há coisas muito mais sedutoras, contra as quais o ‘divertimento religioso’ não pode concorrer.” (p.170)
VII. O ajoelhar-se, segundo o modelo de Cristo, é a posição correta para entrar no Sacrifício da Cruz.
O Cardeal chama a atenção à frequência com que o Evangelho menciona o acto de ajoelhar-se quando fala da oração de Cristo. Os Evangelistas Mateus (XXII, 39), Marcos (XIV, 35) e Lucas (XXII, 41) unanimemente relatam a prostração e o ajoelhar-se de Cristo na quinta-feira da Semana Santa. “Esta oração, como oração de entrada na Paixão é, segundo a forma e o conteúdo, exemplar” (p. 160). Como a Missa é o Sacrifício da Cruz, começar as orações ao pé do altar de joelhos é uma consequência natural, sendo o modelo do próprio Cristo.
VIII. Hodiernamente, há formas de Ofertório que são uma paródia do substancial.
“A cena quase teatral, dos diversos ‘actores’, que hoje, sobretudo no Ofertório, se pode presenciar, desvia-se definitivamente do essencial. Se cada uma das ações exteriores (que são poucas, mas vêm aumentando sem necessidade) torna-se o substancial da Missa, e esta Liturgia se desnatura em uma mera ação exterior, então o próprio ‘Drama Divino da Liturgia’ se deforma numa paródia” (p. 150). “Se o ‘sentar-se’ durante o Ofertório é a posição adequada, não o trataremos aqui. Tal prática, de origem recente, é oriunda de um certo conceito desta parte da Santa Liturgia, que considera o Ofertório como uma ação meramente pragmática, cujo caráter sacral é simplesmente negado” (p. 168).
IX. O ajoelhar-se durante a Consagração é absolutamente necessário. Uma Liturgia sem ajoelhar-se está mui profundamente doente.
O Cardeal enumera uma abundância de acontecimentos bíblicos em que os homens se ajoelharam diante de Cristo e conclui: “Por isso o dobrar dos joelhos diante da presença do Deus Vivo é sumamente necessário” (p.164). “A incapacidade para ajoelhar-se parece, diretamente, como essência do diabólico… É possível que a cultura moderna considere o ajoelhar-se uma coisa estranha – isto, enquanto sendo uma cultura que se afastou da Fé, e não conhece mais Aquele diante do qual o estar de joelhos é a única postura adequada, e essencialmente necessária. Quem aprende a crer, aprende também a ajoelhar-se. Uma Fé ou uma Liturgia que não mais conhece o ajoelhar-se, seria doente no seu próprio centro. O ajoelhar-se, nos lugares onde se perdeu, deve ser recuperado” (p. 166). “Àquele que crendo e rezando participa da Eucaristia, deve ser profundamente comovente o momento em que o Senhor desce e transubstancia o pão e o vinho em seu Corpo e Sangue. Perante tal acontecimento, não poderia ser outra a nossa postura, que o colocar-nos reverentemente de joelhos, saudando assim o Senhor” (p. 182).
XII. O silêncio durante o Cânon é um insistente clamor a Deus; novas Orações Eucarísticas escorregam para a banalidade.
“No ano de 1978, a contra-gosto de alguns liturgistas, afirmei que não havia necessidade, de modo algum, de recitar o Cânon em voz alta. Depois de muito meditar, desejo, aqui, repetir o mesmo, esperando que, passados vinte anos, tenha-se alcançado maior compreensão desta tese. Entretanto, os liturgistas alemães, em seus esforços para a reforma do Missal, expressamente afirmaram que o ápice da Liturgia Eucarística actual, o Cânon, tornou-se o próprio centro da crise litúrgica. Desde logo após a reforma se procurou sanar este problema com a contínua invenção de novas Preces Eucarísticas, no entanto, resvalou-se cada vez mais para o banal. A multiplicação das palavras não ajuda a superar o problema. É realmente falso dizer que o pronunciar do Cânon em voz alta seja condição para a participação de todos neste acto central da Celebração Eucarística… Somente aquele que experimentou uma igreja unida no silêncio do Cânon, vivenciou o que é um ‘silêncio preenchido’, que ao mesmo tempo é uma clamorosa e insistente súplica a Deus e uma oração cheia de espírito.” (p. 184)
XIII. O tumulto causado pelo hodierno Abraço da Paz.
“A actual ordem do Abraço da Paz causa frequentemente um grande tumulto na comunidade, (…) em que, inusitadamente, entra o convite para volver os olhos ao Cordeiro de Deus.” (p. 183)
XIV. Os rezares silenciosos do sacerdote antes do Evangelho, e antes e depois da Comunhão são necessários.
“As orações silenciosas, pronunciadas pelo sacerdote, constituem um outro motivo, oferecido pela própria Liturgia, para aquele silêncio cheio de significado, pois que a ação litúrgica não é interrompida por este silêncio, mas o tem como parte integrante de si. Uma visão sociológico-ativista da tarefa do sacerdote na Eucaristia desaprova e elimina estas orações… As orações que o padre faz em silêncio o convidam a realizar a sua tarefa com um cunho mais pessoal, a fim de que ele próprio se ofereça a Deus… A reforma litúrgica reduziu significativamente o número destas orações, mas graças a Deus ainda sobraram algumas, pois elas devem continuar a existir. Em primeiro lugar vem a oração preparatória à proclamação do Evangelho, que o sacerdote deve recitar com grande devoção e no silêncio… Sobre o significado do Ofertório, que na nova Liturgia não é claro, já tratamos noutro lugar” (p. 182).


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sábado, 19 de setembro de 2020

Arrependimento e morte de D. Afonso III

E semtindo sua morte muito açerqua, seendo já memfestado, requerio que lhe dessem ho sacaramento; e quando lhe foi apresentado, e comtarom os artigos da fé, como he costume, dizemdolhe se crija assi todo, e aquel samto sacramento que avia de reçeber, respomdeo el e disse: 

"Todo esso creo come fiel christão, e creo mais que elle me deu estes Regnos pera os mamteer, em dereito e justiça; e eu por meus pecados o fiz de tal guisa, que lhe darei delles muj maao comto". 

E em dizemdo esto, chorava muj de voomtade, rogamdo a Deos que lhe perdoasse...

in 'Diccionário de História de Portugal' (Rui de Abreu Torres)


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sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Santa Sé diz que fiéis devem voltar à Missa e podem comungar na boca

O Cardeal Sarah, Prefeito da Congregação do Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, enviou uma carta aos Presidentes da Conferências do Mundo inteiro sobre a questão dos sacramentos, especialmente da Santa Missa, nas condições

O documento, aprovado pelo Papa Francisco, apela veementemente aos fiéis que voltem às igrejas para assistir à Missa dominical, que não pode ser substituída por assistir à Missa através da internet.

Diz ainda que nenhuma limitação higiénica pode justificar "experiências rituais improvisadas" e que as rubricas previstas nos respectivos Ritos devem ser seguidas.

Nesse sentido, continua o texto, têm "os fiéis o direito de receber o Corpo de Cristo e adorar o Senhor presente na Eucaristia nas formas previstas, sem limitações que até mesmo possam ir além do previsto pelas normas higiénicas emanadas pelas autoridades públicas ou pelos Bispos."

Quer isto dizer que nenhuma autoridade de saúde ou autoridade eclesiástica (incluindo o Bispo diocesano e muito menos a Conferência Episcopal) pode proibir que um fiel receba a Sagrada Comunhão na boca. Um fiel não pode ser obrigado a receber a Comunhão na mão, ponto final. 

João Silveira


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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

A devoção de beijar as mãos dos sacerdotes

Sabemos que São Francisco de Assis não quis fazer-se sacerdote, porque se julgava muito indigno de tão excelsa vocação. Ele venerava os sacerdotes com tal devoção, que os considerava os seus "Senhores", pois neles via somente "o Filho de Deus", e o seu amor à Eucaristia fundia-se com o amor ao sacerdote, o qual consagra e administra o Corpo e o Sangue de Jesus. De modo particular ele venerava as mãos do sacerdote, e beijava-as sempre de joelhos com grande devoção; e beijava-lhes também os pés, e até os próprios rastos deixados por um sacerdote, que tivesse por ali passado. 

São João Bosco exorta a todos com estas palavras: "Eu recomendo-vos um grande respeito para com os sacerdotes, descobri a vossa cabeça em sinal de reverência, quando falardes com eles, ou quando passais por eles no caminho, e beijai-lhes obsequiosamente a mão. Tomai cuidado para não os desprezardes, com factos ou por palavras. Quem não respeita os Ministros Sagrados, deve temer um grande castigo do Senhor". 

A veneração pelas mãos consagradas do sacerdote, beijadas com reverência pelos fiéis, sempre existiu na Igreja. Baste-nos pensar que, durante as perseguições dos primeiros séculos, um dos maiores ultrajes contra os bispos e sacerdotes consistia em amputar-lhes as mãos, para que assim não pudessem mais nem consagrar, nem abençoar. Por isso, os cristãos recolhiam aquelas mãos amputadas e, mergulhadas em aromas as conservavam como relíquias. 

Além disso, o beijo das mãos do sacerdote é uma expressão delicada de fé e de amor a Jesus, que o sacerdote personifica. Quanto mais fé e amor se tem, tanto mais nos sentimos impelidos a prostar-nos diante do sacerdote e a beijar aquelas mãos "santas e veneráveis" (Cânon Romano) entre as quais Jesus se torna amorosamente presente entre nós cada dia. "Ó veneranda dignidade do sacerdote - exclama Santo Agostinho - em cujas mãos o Filho de Deus se encarna como no seio da Virgem!" E o Cura d'Ars dizia: "Dá-se um grande valor aos objetos que foram colocados, em Loreto, na tigela da Virgem Santa e do Menino Jesus. 

Mas os dedos do sacerdote, que tocaram na Carne adorável de Jesus Cristo e penetraram no cálice, onde esteve o seu Sangue, e na âmbula, onde esteve o seu Corpo, acaso não são muito mais preciosos?" Talvez nem tenhamos ainda pensado nisso. Mas é assim. E os exemplos dos Santos confirmam-no.

Pe. Stefano M. Manelli, FI in "Jesus, Nosso Amor Eucarístico"


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quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Confissar-se no confessionário: um direito dos fiéis

Desvantagens da confissão "Cara a Cara"

1) A maior e mais óbvia é a falta de anonimato. A confissão dos pecados, desde o início da Idade Média, tem sido sempre anónimo (nos tempos patrísticos era pública, diante da congregação, algo que eu penso que ninguém esteja ansioso em voltar). Saber que agora o sacerdote é capaz de ligar uma cara aos pecados que está a confessar torna mais difícil trazer tudo para fora.


2) Cria uma atmosfera de sala de encontros ou de escritório de psiquiatra. O formato cara a cara promove a discussão; afinal de contas, em sociedade, estamos sempre cara a cara quando discutimos coisas. Assim sendo, do hábito, tendemos mais a querer "discutir" os nossos pecados em vez de os confessar. Atrás da grade é mais fácil dizer, "Perdoe-me Padre, porque pequei. Passaram seis semanas desde a minha última confissão. Confesso que fiz..." É esquisito repetir esta fórmula quando está sentado cara a cara diante do sacerdote. Ao contrário disto, a confissão tende a soar como "Oh Padre. Estou a ter com cada problema com a minha filha! Deixe-me contar-lhe..." Este é um dos maiores problemas da confissão cara a cara; em vez da confissão dos pecados torna-se numa discussão dos problemas.

3) Na sequência da tendência de cima, da confissão se transformar numa discussão, a consequência é que a confissão demora muito mais tempo; demora muito mais a discutir as coisas com um sacerdote cara a cara do que simplesmente fazer uma confissão atrás da grade. Confissões cara a cara normalmente demoram 20 minutos cada. A média de confissões ao S. Padre Pio era menos de dois minutos.

4) Falha em dar alguma sensação do facto de que o pecado o põe fora da graça de Deus; i.e, o sacramento cara a cara tem muito pouco valor simbólico. Dá é a sensação de uma conversa junto à lareia.

Benefícios de "Atrás da Grade"

1) É mais fácil lembrar os pecados devido à ausência de ter um sacerdote a olhar para si enquanto tenta fazê-lo, tornando assim a confissão mais completa e, assim, mais frutuosa.

2) Preserva o anonimato, outra vez tornando mais fácil lembrar e confirmar os pecados. O anonimato também simboliza, de alguma forma, a natureza gratuita da graça de Deus, que dá sem distinção de pessoas. O facto de o sacerdote não o ver é de simboliza de alguma forma o facto de que para Deus todos os homens são iguais e que Ele julga pelo coração.

3) Torna as confissões mais curtas; é mais difícil entrar numa "discussão" atrás da grade.


4) Valor simbólico: colocar-se a si mesmo atrás da grade com o sacerdote, a agir in persona Christi, lembra-nos que o pecado de facto põe uma barreira entre nós e Deus.


5) Maior humildade: quando estamos visíveis para outra pessoa, especialmente um sacerdote, vamos tentar parecer bem no nosso comportamento e expressões faciais. Atrás da grade (especialmente se houver um genuflectório), estamos mais propícios a esquecer a nossa imagem e a verdadeiramente nos humilharmos. Esta é a disposição própria do sacramento e assim torna-a mais frutuosa.


De certeza que há muitas outras razões, e isto é sem ter em conta as palavras e rúbricas concretas do próprio rito! Desta forma conseguimos ver que a confissão atrás das grades ajuda a infundir maior humildade, torna mais fácil ao penitente lembrar os seus pecados, preserva o anonimato, mantém o tempo da confissão mais curto (tornando-a mais prática) e, se as disposições próprias estiverem todas lá, facilita maior recepção de graça ex opere operantis ao penitente. Não é uma questão de mero gosto. Se um sacerdote levasse a sério a sua obrigação de tornar a máxima quantidade de graça disponível para o seu rebanho, parece que ele devia recomendar fervorosamente a confissão atrás da grade.


in unamsanctamcatholicam


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Dois portugueses ordenados sub-diáconos do Instituto Cristo Rei

O Cardeal Raymond Leo Burke ordenou 16 sub-diáconos, para o Instituto Cristo Rei e Sumo Sacerdote na igreja de São Miguel e São Caetano, em Florença. Esteve também presente D. Athanasius Schneider, que tinha acabado de pregar um retiro para os seminaristas. Dois dos recém-ordenados são portugueses. Rezemos por todos eles, especialmente pelo João e pelo Pedro.



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domingo, 13 de setembro de 2020

Oh! Fátima!

Mais um facto, entre tantos, a sublinhar o encanto de Fátima. Em Budapeste, numa viagem que ali realizou, um grupo de portugueses, em princípios de Setembro de 1989, quando já se adivinhava o desmoronar do muro que separou duas conceções de vida, mas ainda sob o férreo controlo da foice e do martelo, encontrou, junto da Catedral de Santo Estêvão, um sacerdote perfeitamente identificado como tal. 

Foi o único padre encontrado, com traje eclesiástico, em toda a cidade, naqueles dias, o que faz pensar na sua coragem. Vários sacerdotes do grupo viajavam também perfeitamente identificados. Tentaram falar com ele em diversos idiomas — português, francês, espanhol e italiano — mas foi tudo inútil. Tiveram então alguns sacerdotes portugueses a luminosa ideia de se exprimirem em latim: «Sumus lusitani!» (Somos portugueses!). 

Quando recebeu esta resposta, o rosto deste homem de Deus, até então velado por um certo ar de desconfiança, iluminou-se com um sorriso, tomou uma expressão que jamais se poderá esquecer e, de mãos postas, olhando para o céu, exclamou com enlevo: «Oh! Fátima!»

in 'Pastorinhos de Fátima' (M. Fernando Silva)


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sábado, 12 de setembro de 2020

Como viver desde já a vida eterna

Esta vida eterna começada[1] constitui todo um organismo espiritual, que deve desenvolver-se até à nossa entrada no céu. A graça santificante, recebida na essência da alma, é o princípio radical deste organismo imperecível, que deveria durar para sempre, se o pecado mortal, que é uma desordem radical, não viesse por vezes destruí-la. (Cfr. ST, I-II, Q109, A3 e A4) 

Da graça santificante, semente da glória, derivam as virtudes infusas, primeiramente as virtudes teologais, a maior das quais, a caridade, deve, como a graça santificante, durar para sempre. "A caridade nunca passará, - diz S. Paulo -, (...) agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade, mas a maior das três é a caridade" (I Cor 13, 8-13). Ela durará para sempre, eternamente, quando a fé tiver desaparecido para dar lugar à visão e quando à esperança suceder a possessão inadmissível de Deus claramente conhecido.

O organismo espiritual completa-se pelas virtudes morais infusas que se referem aos meios, enquanto as virtudes teologais se voltam para o fim último. São estas outras tantas funções admiravelmente subordinadas, infinitamente superiores àquelas do nosso organismo corporal. Elas chamam-se: prudência cristã, justiça, fortaleza, temperança, humildade, mansidão, paciência, magnanimidade, etc.

Finalmente, para remediar a imperfeição destas virtudes, que sob a direcção da fé obscura e da prudência conservam ainda um modo demasiado humano de agir, há os sete dons do Espírito Santo, que habita em nós. São como velas de um barco e dispõem-nos a receber dócil e prontamente o sopro do alto, as inspirações especiais de Deus, que nos permitem agir de uma maneira já não humana, mas divina, com o entusiasmo necessário para percorrer o caminho de Deus e não recuar diante dos obstáculos.

Todas estas virtudes infusas e estes dons crescem com a graça santificante e a caridade, diz S. Tomás (ST, I-II, Q66, A2), assim como os cinco dedos da mão se desenvolvem conjuntamente, como todos os órgãos do nosso corpo aumentam ao mesmo tempo. Assim sendo, não é possível conceber que uma alma tenha alta caridade sem ter o dom da sabedoria em grau proporcional, quer sob forma nitidamente contemplativa, quer sob uma forma prática mais directamente ordenada para a acção. A sabedoria de um S. Vicente de Paulo não é absolutamente semelhante à de um S. Agostinho, mas ambas são infusas.

Adaptado de: Pe. Reginald Garrigou-Lagrange, OP, in As Três Vias e as Três Conversões, Cap. I

Notas:

1. O autor explica mais atrás que a "vida eterna começada" consiste na crença em Deus com fé viva, unida à caridade, ao amor a Deus e ao próximo. Numa vida sobrenatural idêntica, em germe, à vida eterna: "A graça não é senão um certo começo da glória em nós." (ST, II-II, Q24, A3; I-II, Q69, A2; De Veritate 14, A2)

Explica que esta é necessária para o progresso espiritual: "Gratia est semem gloriae." A diferença para a vida sobrenatural do céu é uma só: aqui na terra conhecemos a Deus (sobrenatural e infalivelmente) pela obscuridade da fé e não na clareza da visão. Esta vida é dada pelo baptismo e nutrida pela Eucaristia e é superior a qualquer milagre, é supra-humana e até supra-angélica.

Dizia Bossuet: "A vida eterna começada consiste em conhecer a Deus pela fé (unida à caridade), e a vida eterna consumada consiste em ver a Deus face a face desveladamente. Jesus Cristo nos dá uma e outra, porque no-la mereceu e porque Ele é o seu princípio em todos os membros que anima." (Méditations sur L'Évangile, IIa P, 37º dia, em João 17, 3)

Tal como diz a liturgia no prefácio da Missa Pro Defunctis: "para os vossos fiéis, Senhor, a vida não é tirada mas mudada e transfigurada".


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sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Nada nos vale sem a humildade

A providência de Deus, que dá a cada um o que mais lhe convém, tudo dispôs para nos conduzir à humildade. De facto, se te orgulhas com as graças da providência, esta abandona-te e voltas a cair. 
Recorda, pois, que não é por ti, nem pela tua virtude, que resistes às más tendências, mas que que é a graça que te sustenta, para que não temas. 

Geme, chora, recorda os teus pecados no tempo da prova, a fim de seres libertado do orgulho e de adquirires a humildade. Mas não desesperes. Pede humildemente a Deus que te perdoe os teus pecados. 

A humildade, também nas obras, apaga muitos pecados. Pelo contrário, sem ela, as obras de nada servem, chegando mesmo a atrair males sobre nós. Obtém pois, pela humildade, o perdão das tuas injustiças. A humildade está para a virtude como o sal para os alimentos; a humildade destrói a força dos muitos pecados. 

Se a possuirmos, fará de nós filhos de Deus, conduzindo-nos a Deus mesmo sem o socorro das boas obras. É por isso que, sem ela, todas as obras são vãs, como vãs são todas as virtudes e todas as dores.

Isaac, o Sírio (século VII) in 'Discursos ascéticos' (I série, n.º 49)


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terça-feira, 8 de setembro de 2020

Salve Regina Solene

Salve Regina em tom solene cantada por seminaristas da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro. Nesta versão, os cantores usam uma técnica chamada organum. É uma técnica dos primórdios da polifonia, que consiste em suster uma nota-pedal. Metade do coro canta a melodia e a outra metade canta o texto numa nota-pedal que sofre apenas 2 ou 3 alterações ao longo da peça.

Mais um tesouro da tradição bimilenar da Igreja Católica.


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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

A teologia de Karl Rahner e a eutanásia da Doutrina Social da Igreja

O Padre Karl Rahner SJ foi um dos teólogos mais influentes dos últimos 50 anos na Igreja, mas a sua teologia apresenta graves problemas. Alguns deles são apresentados no texto que se segue.

O Arcebispo Giampaolo Crepaldi escreve no seu livro “La Dottrina sociale della Chiesa. Una verifica a dieci anni dal Compendio (2004-2014)” [“A Doutrina social da Igreja. Uma verificação dez anos depois do Compêndio (2004-2014)”] (Cantagalli, Siena, 2014):

«Na minha opinião, o pensamento mais influente na crítica da Doutrina Social da Igreja é o de Karl Rahner. Se examinarmos detalhadamente, muitos dos teólogos que criticaram e desenvolveram vias alternativas à Doutrina Social foram seus alunos. Rahner reflecte na esteira do pensamento de Heidegger, ou seja, fora do contexto de uma filosofia cristã e fora também do contexto definido na “Fides et Ratio” de São João Paulo II. Esta encíclica menciona alguns nomes, por exemplo, de filósofos cristãos, mas Heidegger não figura entre eles. Rahner concebe Deus como um "transcendental existencial". Isto significa principalmente duas coisas: que todos os homens são Deus, pois Ele é a sua dimensão apriorística, o horizonte não cognoscível e não classificável da sua subjectividade e da sua liberdade, na prática, da sua condição de pessoas; que a Deus se acede sempre no âmbito da nossa consciência. Deus não é conhecido, mas conscientemente e existencialmente experimentado como horizonte de todo o significado.

Esta posição historiciza a fé, que não é um conhecimento mas uma experiência existencial de um horizonte que não se pode transcender. Nisto consiste, para Rahner, a transcendência. Não existem já ateus e crentes, porque todos estão abrangidos por este horizonte e se acompanham reciprocamente na interpretação da vida. Uma pessoa passa de um cristianismo anónimo para um não anónimo, ou seja, temático e consciente, sem por isso deixar de partilhar o mesmo horizonte. O bem e o mal não são claros, dado que, tendo lugar toda a existência dentro do horizonte transcendental de Deus, existem vários níveis de bem que importará fazer aumentar, mas nunca condenar. O homem nunca pode saber com segurança quando está em situação de pecado. A Igreja não está diante do mundo, mesmo se está no mundo, mas faz-se mundo, porque partilha com o mundo o horizonte existencial comum.

Neste contexto, que aqui procurei sintetizar em poucas palavras com o risco de ser incompleto, é muito difícil fazer entrar a Doutrina Social da Igreja, a menos que se desmantele o seu carácter de corpus doutrinal, eliminando-se o seu valor missionário e salvífico, e se passe a entendê-la como uma prática de recepção, escuta e caminho em conjunto, mas sem a luz da verdade que vem de fora deste mundo, do transcendente. O transcendente, para Rahner, consiste precisamente na dimensão transcendental existencial que, sendo a condição de todos os significados, não pode ser, por sua vez, tematizada. É transcendente neste sentido.»

Destas afirmações resulta a incompatibilidade da teologia rahneriana com a Doutrina Social da Igreja e, por conseguinte, percebe-se porque todas as correntes de pensamento que se baseiam em Rahner têm combatido, aberta ou ocultamente, a Doutrina Social da Igreja, também no longo período - na verdade, especialmente nesse período - onde ela foi relançada pela vontade dos Papas. Trata-se de uma oposição surda e obstinada que tem produzido uma série de danos e que hoje parece ter vencido. Pude confirmar esta tese do Observatório no meu último livro, La nuova Chiesa di Karl Rahner. Il teologo che ha insegnato ad arrendersi al mondo" ["A nova Igreja de Karl Rahner. O teólogo que ensinou a render-se ao mundo”](Fede & Cultura, Verona, 2017). À luz do que está escrito neste livro, pode ser útil recordar aqui os aspectos fundamentais em que a teologia dirigida por Rahner configura uma tentativa de eutanásia da Doutrina Social da Igreja. Esperamos assim estimular um debate que acolheremos com prazer na nossa página.

A Igreja no mundo

Para que a Doutrina Social da Igreja exista, é necessário que a Igreja não se confunda com o mundo. A Doutrina Social da Igreja constitui de facto o anúncio de Cristo na realidade temporal. Ora se a Igreja está imersa, sem distinção, nas realidades temporais, a missão da Doutrina Social da Igreja, e a Doutrina Social da Igreja como missão da Igreja, ficam concluídas. É precisamente o que Rahner afirma: que a Igreja deve deixar de tentar “manipular o mundo”. A Igreja deve ser entendida como uma parte do mundo, sem pretensões de superioridade doutrinal e de verdade.

Deus revela-se no mundo

Isto é assim porque Deus não se revela prioritariamente na Igreja, mas no mundo, dado que Ele se revela indirectamente nos eventos da existência enquanto horizonte primordial e apriorístico que os torna possíveis. A revelação de Deus não é nem cósmica, nem metafísica, é totalmente histórica. Deus revela-se indirectamente nos factos históricos. Daqui resulta que a doutrina - e, portanto, também a Doutrina Social da Igreja - não é o elemento primordial. Antes de tudo há a vida, a prática ... e só depois a doutrina. É por isso que a Doutrina Social da Igreja tem sido acusada de ser ideológica e abstracta.

Deus é imanente na história

De acordo com Rahner, é necessário repensar a transcendência de Deus. Ela não tem carácter metafísico, mas existencial. Deus é transcendente na medida em que não é uma coisa entre as coisas, mas é o horizonte que torna possível a nossa visão interessada, participativa e livre das coisas. Transcendente, para Rahner, significa “a priori”. Neste sentido, Deus não nos revela conhecimentos, não nos transmite uma doutrina, não nos dá os preceitos ... Ele apenas nos diz para viver de forma participativa, dialogando com os outros, porque Deus revela-se a todos e não apenas aos cristãos.

Deus faz perguntas e não dá respostas

A Doutrina Social da Igreja, não obstante o seu carácter prático e até mesmo experimental, tinha a pretensão de fornecer as respostas para o bem e a salvação para a humanidade. Porém, para Rahner, Deus não dá regras, sugestões ou indicações. A presença de Deus em todos os homens consiste na sua “natureza questionável”, isto é, na insaciabilidade que os leva sempre a colocar em questão os resultados adquiridos. O cristão é simplesmente aquele que está aberto ao futuro, daqui resultando todas as doutrinas teológicas do futuro e a praxis que têm caracterizado as décadas pós-conciliares.

Desaparecimento da doutrina e da lei moral natural

A Doutrina Social da Igreja sempre afirmou ser baseada na revelação - ou seja, na doutrina da fé - e no direito natural. Mas na perspectiva de Rahner deixam de existir quer a revelação, quer o direito natural. A revelação não nos faz conhecer as verdades doutrinais, os dogmas são históricos e evoluem, a "natureza" é completamente absorvida na história e constitui um resíduo metafísico do passado.

Como se pode ver a partir destas breves anotações – melhor desenvolvidas no livro acima mencionado –, existe uma incompatibilidade absoluta entre a teologia de Karl Rahner e a Doutrina Social da Igreja. Tal facto explica, repito, porque esta tem sido tão contestada e combatida. Mas a razão não está do lado de Rahner e do rahnerismo, mesmo se estes parecem prevalecer hoje na Igreja.

Stefano Fontana in vanthuanobservatory.org


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O que é o adultério?

ADULTÉRIO
é a cópula entre pessoa casada e outra que não seja o seu cônjuge. É pecado mortal contra a castidade, e também contra a justiça, porque viola o direito do cônjuge inocente; é uma profanação da santidade do Matrimónio; é uma quebra da promessa feita solenemente à face da Igreja. O Apóstolo São Paulo condena o adultério, dizendo que os adúlteros serão excluídos do Reino de Deus (Ep. I Cor. VI., 9). 

Padre José Lourenço in Dicionário da Doutrina Católica


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domingo, 6 de setembro de 2020

6 frases de Madre Teresa sobre o aborto

1) “Um país que aceita o aborto não está a ensinar os seus cidadãos a amar, mas a usar a violência para obter o que querem. É por isso que o maior destruidor do amor e da paz é o aborto.”

2) “Eis porque o aborto é um pecado tão grave. Não somente se mata a vida, mas nos colocamos mais alto do que Deus; os homens decidem quem deve viver e quem deve morrer.”

3) “Temos medo da guerra nuclear e dessa nova enfermidade que chamamos de SIDA, mas matar crianças inocentes não nos assusta. O aborto é pior do que a fome, pior do que a guerra.”

4) “Mas eu sinto que o maior destruidor da paz hoje é o aborto, porque é uma guerra contra a criança – um assassinato directo da criança inocente – assassinato pela própria mãe. E se nós aceitamos que uma mãe pode matar até mesmo sua própria criança, como podemos dizer para outras pessoas que não se matem uns aos outros?”

5) ”A pior calamidade para a humanidade não é a guerra ou o terremoto. É viver sem Deus. Quando Deus não existe, admite-se tudo. Se a lei permite o aborto e a eutanásia, não nos surpreende que se promova a guerra!”

6) “O aborto pode ser combatido mediante a adopção. Quem não quiser as crianças que vão nascer, que as dê a mim. Não rejeitarei uma só delas. Encontrarei uns pais para elas. Ninguém tem o direito de matar um ser humano que vai nascer: nem o pai, nem a mãe, nem o estado, nem o médico. Ninguém. Nunca, jamais, em nenhum caso. Se todo o dinheiro que se gasta para matar fosse gasto em fazer as pessoas viver, todos os seres humanos vivos e os que vêm ao mundo viveriam muito bem e muito felizes. Um país que permite o aborto é um país muito pobre, porque tem medo de uma criança, e o medo é sempre uma grande pobreza.”

in ChurchPop


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sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Tendências "religiosas" modernas

O verdadeiro adversário está no panteísmo, nas suas múltiplas formas. Arranhe-se qualquer sistema filosófico com ares de novo, qualquer forma mais ou menos recente de "espiritualismo", e, logo abaixo do verniz, encontrar-se-á o panteísmo. 

O Universo é divino, e a Humanidade, parte integrante do Universo, também é divina. A felicidade do Homem consiste em tomar consciência de seu carácter divino, excitando dentro de si a sensação vivida da sua própria divindade, o que consegue por uma série de exercícios mentais ou fórmulas litúrgicas mais ou menos mágicas, cujas modalidades variam de sistema a sistema, e em geral - como acontece em toda a magia - são conhecidas apenas por uns poucos iniciados. 

Esta manifestação das energias divinas no íntimo do nosso ser, além de nos prestar toda a sorte de serviços psíquicos interiores úteis e deleitosos, também é muito proveitosa para o próprio cosmos. Com efeito, quanto mais excitamos em nós as energias divinas, tanto mais elas se activam nos outros seres. E, à medida em que se activam nos outros seres, progride todo o Universo cujo desenvolvimento consiste, em essência no desdobrar das energias divinas que se encontram neles mais ou menos como o vento no espaço.

Este sistema traz, evidentemente, a morte da inteligência. Se o homem quer conhecer Deus, e comunicar-se com Ele, não deve estudar nem pensar. Basta-lhe conhecer os métodos aptos a suscitar nele a experiência sensível da presença e da acção das energias universais e divinas dentro de si mesmo.

Também a vontade perde a sua razão de ser dentro deste sistema. Não há propriamente uma união com a divindade por meio do esforço da vontade aplicada em praticar o bem e evitar o mal. Basta que o Homem consiga despertar dentro de si por meio de métodos adequados a sensação experimental de que seu ser está naturalmente impregnado de forças divinas; o que aliás não é tão difícil pois todo o iniciado conhece tais métodos e nele se pode exercitar.

Está claro que nada disto teria capacidade de sedução, nem encanto, se não se envolvesse nos véus do mistério. Assim, a magia ressurrecta do século XX inventou não só vocábulos mas vocabulários inteiros, novos e complicados, todo um sistema literário cheio de figuras esfumaçadas e vistosas, em que estas afirmações fundamentais, variáveis aliás de escola para escola quase ao infinito nos seus pormenores, vão sendo postas em circulação para uso da pobre Cristandade diluída, narcotizada e insensível do século XX.

Daí, evidentemente, uma imensa confusão de conceitos, de sistemas, de tendências. 

Assim, fora das fronteiras da Igreja grassa uma religiosidade que em última análise é perfeitamente ímpia. E nos meios católicos? Ao mesmo tempo que formulamos a pergunta, contrai-se de tristeza nosso coração. Manda a verdade que se diga que também aí a confusão existe.

'Sob o signo da confusão e da esperança' in Catolicismo nº 13, Janeiro de 1952


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A luta pela toalha

Na noite da Última Ceia, os Apóstolos estavam a discutir qual deles teria o primeiro lugar. Nessa altura Nosso Senhor ajoelhou-se, lavou os pés deles e secou-os com uma toalha. Quão poucos há a lutar pela toalha. 

Venerável Arcebispo Fulton Sheen


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quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Breves sobre alguns aspectos da Confissão e da Comunhão

Quem tem acompanhado os meus escritos, nestas duas últimas décadas, saberá bem quanta amargura me traz escrever estes textos (como aliás já vos tenho confessado). Como todos sabeis não sou naturalmente um escritor. Para escrevinhar estes artigos tenho de violentar-me a mim mesmo; preciso, como dizer?, sentir-me e verificar que o essencial está entre a espada e a parede. 

É verdade que muitos, desconhecendo ou esquecendo expressões dos textos evangélicos, das pregações dos apóstolos, dos Padres da Igreja, dos seus Doutores e dos pregadores franciscanos, através dos séculos, me acoimam de injurioso, violento, psicopata(?), vazio de Caridade. 

E, por isso, concluem que estes escritos são indignos de um Sacerdote, rejeitando-os com veemência, recusando-se sequer a lê-los e a dar a conhecê-los. Não contesto as suas conclusões. Afinal quem sou eu para o fazer? Mas agradeço toda essa fúria e indignação colérica que brotando de corações tão benignos e misericordiosos seguramente se transformarão em preces, súplicas, penitências e mortificações por esta alma desgraçada.
 
(Procuro, aqui, tão só, tentar responder a questões que me foram postas)
 
1 - Sobre o Sacramento da Confissão:

a) Por parte do penitente: A Confissão, para ser válida, tem que, juntamente com a contrição[1], o propósito firme de emenda, a confissão integral de todos e cada um dos pecados graves, desde a última confissão, - o seu número, tipo, circunstância. 

Caso, depois de um exame atento e profundo da sua consciência, se tenha esquecido de confessar algum pecado mortal, não precisa de se voltar logo a confessar, bastando que na próxima confissão o faça. Se assim não for terá de fazer uma confissão geral, para seu grande alívio e verdadeira Comunhão com Deus, à qual trará também os pecados das confissões mal feitas. Tudo isto deveria ser ensinado nos Seminários, antes da Ordenação Sacerdotal. E mais deveria ser ensinado ao povo de Deus.

b) Por parte do Sacerdote: Quando um penitente, de boa-fé, se vai confessar e não “preenche” as condições requeridas o Padre poderá supôr que ele estará num estado de ignorância inculpável ou mesmo, de momento, invencível[2], pelo que, segundo a circunstância, lhe poderá dar a absolvição na esperança que volte e venha a reconhecer o que lhe falta; ou, sendo possível, poderá convidá-lo a adiar a absolvição até estar melhor preparado. 

Mas o que não será conveniente ou mesmo desaconselhável dizer (para não transformar um pecador material num pecador formal), em determinadas circunstâncias, deverá ser dito em homilias, sermões, retiros, conferências, palestras, escritos, etc.

c) Não raro sucede que muitos não contando coisas em confissão acabam por fazê-lo com todos os detalhes no psicanalista com frequentes resultados lastimáveis.

d) É bom e salutar que os cristãos se envergonhem de pecar. Mas não é bom nem salutar que se envergonhem de os confessar. Quem assim o faz com coragem e humildade ficará engrandecido aos olhos de Deus e do confessor.
 
2 - Sobre a Sagrada Comunhão:

a) Segundo percebi circula por aí uma ‘polémica’ sobre receber a Sagrada Comunhão na boca ou na mão. Alguns afirmam que outros disseram que para receber dignamente a Comunhão teria de se estar em comunhão eclesial com os nossos legítimos Pastores, a saber, os Bispos portugueses, alinhando com a recomendação de receber a Comunhão na mão. Ora, isto é, evidentemente, um dislate colossal senão mesmo uma chantagem altamente manipuladora - como se alguém dissesse: se queres Comungar terás que receber Nosso Senhor na mão.
 
i) A Lei Universal da Igreja que somente pode ser excepcionada por indulto determina que se Comungue na boca e de joelhos. O indulto, porém, não pode obrigar ninguém a receber a Comunhão na mão e/ou em pé. O Santo Padre é o único que poderá derrogar esta Lei Universal, pelo que estar em Comunhão eclesial significa está-lo com o legítimo Papa. Nenhum Bispo, Episcopado ou Conferência Episcopal poderá determinar algo que a ela se oponha. 

De resto, foi isso o que os nossos Bispos decidiram, a saber, não contradizer o Papa, mas tão só recomendar, em virtude dos conhecimentos (falíveis) que lhes foram transmitidos, que a Comunhão fosse recebida na mão. De contrário, para estar em comunhão eclesial com os Bispos teria de se romper a comunhão eclesial com o Santo Padre. Fazer desta recomendação um critério de comunhão eclesial ultrapassa a mais delirante das ficções. Como se o católico só pudesse Comungar se estivesse em comunhão com a DGS[3]! Espantoso.

b) Alguns Sacerdotes, cientes da adoração devida ao Sacramento do Corpo de Deus humanado, muito louvavelmente não se recusam, pelo contrário, a dar a Comunhão a quem a quer receber na boca e de joelhos. Porém, tomados de um zelo pouco esclarecido, não têm consciência de se entregarem a um sério risco de profanação em virtude de desinfectarem os dedos, imediatamente após a Comunhão, com receio de poder contagiar os outros fiéis. 

Ora está por provar, mesmo quando há contacto com a saliva dos fiéis, que daí resulte algum contágio. Não deixa, no entanto, de ser prudente fazê-lo, mas não do modo que acabo de referir. O Sacerdote adorador, fiel e prudente deverá em primeiro lugar purificar os dedos em água, preparada para o efeito, e somente depois proceder à desinfecção.
 
À Honra e Glória de CRISTO. Ámen.

Padre Nuno Serras Pereira
 
[1]“Na realidade, reconciliar-se com Deus supõe e inclui o apartar-se com lucidez e determinação do pecado, no qual se caiu. Supõe e inclui, portanto, o fazer penitência no sentido mais pleno do termo: arrepender-se, manifestar o arrependimento, assumir a atitude concreta do arrependido, que é a de quem se coloca no caminho do regresso ao Pai. Isto é uma lei geral, que cada um deve seguir na situação particular em que se encontra.” - Papa João Paulo II - Reconciliação e Penitência, nº 13 c
[2]Durante a confissão sacramental há que ter o cuidado de não contribuir para que um pecador material se transforme num pecador formal. Embora aqui haja também limites ou excepções como, por exemplo, no caso do aborto provocado.
[3] Direcção Geral de Saúde


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terça-feira, 1 de setembro de 2020

Actos de Contrição

Muita gente não sabe que acto de contrição dizer quando se confessa a um sacerdote ou depois do exame de consciência ou simplesmente depois de ter cometido um pecado. Deixamos aqui duas versões

Versão curta

Meu Deus, porque sois infinitamente bom,
eu Vos amo de todo o meu coração,
pesa-me ter-Vos ofendido,
e, com o auxílio da vossa divina graça,
proponho firmemente emendar-me
e nunca mais Vos tornar a ofender;
peço e espero o perdão das minhas culpas
pela vossa infinita misericórdia.
Ámen.

Versão Longa

Senhor Jesus Cristo,
Deus e homem verdadeiro,
Criador e Redentor meu,
por serdes Vós Quem sois
sumamente bom
e digno de ser amado
sobre todas as coisas,
e porque Vos amo e estimo,
pesa-me, Senhor,
de todo o meu coração,
de Vos ter ofendido;
pesa-me também
por perdido o Céu
e merecido o inferno,
e proponho firmemente,
ajudado com o auxílio
da vossa divina graça,
emendar-me
e nunca mais vos tornar a ofender,
e espero alcançar o perdão
das minhas culpas,
pela vossa infinita misericórdia.
Ámen.


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